Simplesmente PortugalConfesso que me custa a acreditar que foi o povo luso que desvendou o desconhecido. Que ousou sair do ócio e procurar o obscuro, trazer para o conhecimento e para a luz do dia o que se encontrava no desconhecido e na noite de milhões de quilómetros de separação.
Ao ler Os Lusíadas, obra épica de Portugal escrita por Luís de Camões, sinto orgulho de um país que, neste momento, me repugna. Como é possível que um país que apresenta uma história da qual todos os portugueses se orgulham se encontre, actualmente, em decadência total?
Uma história incrível, recheada de vários episódios bélicos, tais como a Batalha de Aljubarrota, a Batalha de Ourique…, que evidenciam a coragem e ousadia de um povo, mostrando uma mão forte e ainda audácia em enfrentar o desconhecido e vencer o medo, indo ao sabor do vento em direcção aos primeiros raios de sol do dia.
Portugal. Pequeno ninho numa grande floresta. Impulsionador principal da Europa, tirando esta da maresia em que se encontrava. Um Portugal que rebentou as amarras que o prendiam e, a partir de um pinhal de Leiria, construiu as suas naus e navegou por mares ainda virgens.
Mas onde está esse Portugal agora?
Se, no passado, este pequeno país foi grande, actualmente, encontra-se resumido à sua capital, querendo transformar esta, a todo o custo, numa grande metrópole cosmopolita, tal como Paris ou Nova Iorque. Assim, esquece-se que um país só voa mais alto se, como um pássaro, tiver as duas asas em perfeita sintonia. Portugal quer avançar estando o centro e sul um passo (ou mais) à frente, principalmente, do norte.
No passado, o nome do nosso país percorreu o mundo inteiro e, acima de tudo, era respeitado. Nos dias que correm, esse mesmo nome mal ultrapassa a fronteira. Outrora fomos um povo temido e conhecido mundialmente, agora Portugal, bem esmiuçado, resulta em Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Luís Figo, Mariza, vinho do Porto e pouco mais. Deixámos de ser conhecidos como grande nação que fomos e passámos a ser conhecidos por algumas individualidades.
Contudo, a ameaça à identidade nacional não termina. Portugal apresenta uma bandeira repleta de simbologia – os sete castelos, as cinco chagas de Cristo, vermelho (símbolo do sangue derramado nas batalhas), verde (símbolo da verdura e dos campos de cultivo), etc. – que foi içada nas naus e colocada em cada novo porto marcando a nossa área. Presentemente, essa bandeira só é erguida em ocasiões em que a Selecção Nacional de Futebol joga, como foi o caso do tão conhecido e recordado Euro 2004, do Mundial de 2006 e ainda da preparação para o Euro 2008. Fora essas ocasiões, o lema “À janela uma bandeira, no campo uma nação inteira” é esquecido e a nossa tão magnífica bandeira é arrumada e esquecida numa gaveta qualquer, perdendo-se o orgulho que nela se deposita quando estão a decorrer os noventa minutos.
Outro factor que me deixa estupefacta incide nas alterações estapafúrdias que decorrem a nível da educação, passando na economia, na administração, na reforma fiscal e acabando na saúde e investigação científica. Alterações que deveriam contribuir para que, principalmente os jovens vissem o futuro com bons olhos dentro do seu país e não como um futuro negro onde só a emigração parece ser a boa solução para uma vida estável. Os bens essenciais para uma boa qualidade de vida das populações estão a afastar-se vertiginosamente dos habitantes, como é o caso do encerramento de centros hospitalares e urgências (principalmente o Serviço de Urgências do Hospital D. Luís I, no Peso da Régua), um bom exemplo para as mudanças drásticas na saúde. Na educação é fulcral salientar o encerramento de escolas primárias que tornam, especialmente, as aldeias alvos de desertificação e, ainda, a utilização de aulas de substituição e o novo estatuto do aluno. No meu ponto de vista e ainda como estudante, vejo essas alterações como um meio de transportar para as escolas a imagem de uma cadeia e de encarceramento.
Com a entrada de Portugal na União Europeia, Portugal sofreu diversas alterações, tanto económicas como legislativas, que deveriam ajudar a nação lusa a erguer-se do buraco onde se encontra, sendo vantajoso na melhoria da qualidade de vida de todos os portugueses. Mas, por mais surpreendente que pareça, a nossa pátria utiliza a quantia monetária que a União Europeia nos fornece em projectos e construções desnecessárias e megalómanas. Não basta estar a par da Europa só em construções floridas, enquanto assistimos de braços cruzados ao encerramento desmesurado dos serviços essenciais.
Para se estar a par da Europa não basta dar um enorme e ríspido salto em direcção ao colossal em termos de construções. Primeiramente, é necessário alterar as mentes retrógradas da própria população, dos nossos governantes e políticos em geral, que se encontram ainda presas ao tempo e à época áurea de Portugal. Só alterando por dentro a nossa maneira de pensar é que finalmente poderemos mudar o rumo do nosso país e retomar um bom porto, outrora encontrado.