Voar sem AsasHoje, mais do que nunca, apetecia-me fazer algo completamente diferente, atirar a pedra ao charco, quebrar a rotina e a monotonia da minha vida, abrir a janela do quarto e gritar abruptamente.
Contudo, reparei que as forças escapavam das minhas mãos como a fina areia do deserto. Foi então que peguei num papel e numa caneta. Ao olhar aquele papel branco à minha frente, lembrei-me das lágrimas que secaram em folhas como aquela. Lembrei-me daqueles dias em que só a escuridão me acolhia, me refugiava e me escondia do resto do mundo. Agora, sei que essas lágrimas não foram derramadas em vão, elas levaram um pouco da minha tristeza e, de uma maneira ou de outra, me fizeram compreender que é pequeno o percurso que separa o berço do sepulcro. A vida é pequena demais para trancar a felicidade dentro de nós a sete chaves, é necessário libertá-la.
Comecei a rabiscar tudo o que me vinha à cabeça. No meio do emaranhamento dos meus pensamentos, dei por mim a colocar cada letra… cada palavra… no seu devido lugar. No final obtive frases com sentido. Um sentido muito próprio, muito especial, único.
Deixei o coração falar por mim. Por momentos esqueci-me de quem era, onde estava, somente o meu coração falava e a minha mão escrevia. Eu não controlava os meus gestos, simplesmente era controlada pelos meus sentimentos. Sentia-me livre, feliz. Em cada palavra que escrevia ficava um pedaço, uma marca minha, que me fazia renascer, nascer de novo para uma nova vida que só na nossa imaginação ganha contornos e se transforma em realidade.
Sentia-me deslocar da cadeira e voar. A minha imaginação não tinha limites. Em cada frase que escrevia eu sentia que ganhava asas e voava. Voava para lá do infinito, da linha do horizonte.
Aquele papel que dantes fora níveo encontrava-se agora manchado por tinta azul, acarretando uma mensagem e pedacinhos de mim. Sentia-me leve, tinha a sensação de que flutuava e até a brisa mais suave me transportava em direcção às estrelas. Fui invadida por uma tremenda alegria e, nesse momento, senti que atrás de mim a porta da tristeza se trancava e à minha frente a janela da felicidade se abria, eu só tinha de passar por ela e deixar-me envolver no azul límpido do céu.
Em cima da mesa, a minha folha de papel começou a ganhar asas e a metamorfosear-se num pequeno avião que eu cuidadosamente coloquei a voar, deixando-o ao sabor do vento, da mais suave brisa.
O meu pequeno avião levava uma das mais belas mensagens, mas o que importa estarem no papel se não forem colocadas em prática? Que importância têm as palavras se as acções não correspondem ao que foi proferido?
Saí do quarto a correr com uma nova filosofia de vida e decidi, a partir daquele momento, transformar cada lágrima num sorriso, voar, mesmo não possuindo asas…