sexta-feira, 27 de novembro de 2009


A escuridão da noite cai lentamente
Mas antes dela já outra escuridão existe
Dentro de mim!
Escuridão que usurpa os meus sonhos,
Que assombra os meus passos,
Que saqueia a vontade de viver…
O caminho torna-se mais longo
A vontade de chegar ao fim amplifica-se.
Aquela vontade de não mais ver a luz do Sol
Nem o reflexo da Lua…
Deixo de olhar para o Céu
E olho para a terra…
Para a paz que só ela me pode trazer!

Nasci como uma folha nívea
Sem linha nem traço,
Vazia de tudo,
Cheia de nada….
Mas pouco a pouco
Uma caneta foi escrevendo
Meu caminho…
Meus passos…
Minha sina…

Ai que triste o que escreveu…
Tantos espaços em branco
Tantos enganos!
Tantos borratões e tinta espalhada
Formando tintas negras na folha
E na minha vida…

Escuridão...

O dia está negro, escuro.
A noite iluminada pela luz da lua.
Abro as mãos e a felicidade deixo escapar.
De mãos vazias procuro olhar em frente,
O horizonte alcançar...
Mas os pés não se movem;
A cabeça não se ergue;
O sorriso não se forma;
A esperança desvanece pouco a pouco
E, com ela, o sonho e a vontadede viver...
Tudo permanece na escuridão:
O dia, a noite,
A alma, a vida...
As correntes não são quebradas,
Amarrada permaneço...
Este casulo sufoca-me!
Prende-me!
Arrastando-me ainda mais para a escuridão...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ás vezes...
...corremos do tempo
... paramos e olhamos para o mundo que nos rodeia
... sentimos medo, frio
... pintamos este mundo de preto
... queremos estar noutro lugar
...desejamos afastar de nós as nuvens que tapam o Sol
... almejamos tirar as pedras do caminho
...o silêncio é um estorvo
...as palavas incomodam
...as lágrimas soltam-se dos olhos e rolam pela face
...o sorriso escondido revela-se
...sentimo-nos entre as brumas da solidão
...estou sozinha
...a distância separa-nos

Mas sempre...
... o tempo alcança-nos
... o mundo permanece em constantes mudanças
... sentimos saudade
...o mundo terá um arco-íris de cores
... voltamos ás raizes, ao ponto de partida
...o Sol permanecerá a iluminar o nosso caminho entre a escuridão
...existirão curvas na estrada, uma linha do horizonte para alcançar
...o silêncio permanecerá quando as palavras não falam por si
...as palavras acalentarão corações
...os olhos serão o espelho da alma e as lágrimas o seu coração
... um olhar puro permanecerá
...estaremos acompanhados por Anjos da Guarda, por Amigos
...estarás comigo
...uma força invissível nos une e unirá!

Olho para o relógio e reparo que já está a anoitecer, são quase dezanove horas mas mesmo assim ainda sinto os raios solares a embaterem contra a persiana do meu quarto com toda a sua intensidade, pelas suas pequenas aberturas o sol penetra no quatro iluminando-o e fazendo pequenos circulos nas paredes, nos móveis, no meu pequeno mundo!
Nestes finais de tarde em que o dia se vai misturando lentamente com a noite e o Sol dança com a Lua numa dança constante mas sempre diferente, tornando os dias maiores ou menores, dou comigo a olhar para o sol que penetra no meu quarto e na na minha alma e a pensar como é possível que em dias iluminados como aquele que agora está a acabar existem pessoas que permaneçam na escuridão, rodeada de trevas e nuvens carregadas que a qualquer momento podem rebentar espalhando pelas quatro cantos chuvas torrenciais e trovões assustadores?
Olho ao meu redor e descubro coisas novas, certos pormenores que nunca tinha reparado dantes! Coisas de criança, do meu passado que permanecem ainda expostas triunfantemente em cima dos móveis e/ou enfeitando as quatro paredes rosa-pálido que constroem o meu habitat.
O sol não pára de descer em direcção à linha do horizonte! Mais um dia se aproxima do fim e outro do começo numa rotina monotona e constante. Inspiro fundo, abro a persiana da janela rasgada na parede e deixo que os últimos raios solares invadam o ar fresco do quarto. Olho para a Serra do Marão situada mesmo em frente à minha janela e reparo como é linda com o Sol a esconder-se atrás daquela montanha rochosa repleta de carqueixa e histórias. A janela do meu quarto é a minha ponte para o resto do mundo, por ela deixo o meu casulo, ganho asas para voar.
Enquanto contemplo a paisagem pergunto a mim mesma quantas vezes precisamos de respirar para sermos felizes e deixar que, mesmo sem sol o nosso dia seja iluminado? Não importa quantas vezes respiramos, não importa em quantos dias exista o nascer e o pôr do Sol uma vez que são aqueles momentos que ficamos sem respirar, em que poucos segundos parecem uma ocupar uma vida inteira, são aqueles dias em que o Sol não brilha no céu mas mesmo assim existem momentos iluminados que tornam uma vida especial, fazem com que mais uma página das nossas vidas seja escrita em tinta permanente e letras bem garrafais!
Respiro lentamente.... Sinto o ar ainda abafado do final da tarde invadir as minhas narinas indo na auto-estrada em direcção aos pulmões. Todos respiram! Inspirar.... Expirar... Inspirar... Expirar... Constante, inconciente, diária, ritmicamente... Ás vezes forte e acelerada outras vezes calma e paulatinamente. Todavia, surgem momentos em que ouvimos a celebre expressão: “Cortar a respiração!” e sentimo-la! Sentimo-la na alma! No corpo! Sentimo-la quando o medo nos invade, quando uma mão quente passeia pelo corpo vestido somente de pele, quando a maré vasa se torna maré cheia, ...
O Sol já se escondeu por completo! As estrelas começam a aparecer primeiramente como infimos pontos no céu mas que com o surgir da escuridão vão ganhando forma e tornando-se maiores. Sinto que com a escuridão surgem restos de solidão, de saudade. A noite vai caindo e sei que as cidades ganham uma nova luz tal como o meu quarto, sugem pequenos sóis ligados por cabos que vão dando vida à escuridão.
Um dia está a chegar ao fim, ou estará a começar? Sei que estou sem rumo e sonho um sonho acordada em que a Lua se transforma em Sol e tu vens, transformando-se a Lua nela mesma, cortando a repiração!

Douro d'Ouro


Verdes socalcos, uvas a ganhar cor e sabor, corpos doridos, sol escaldante que ilumina o Douro.
Mãos calejadas, pernas cansadas, costas vergadas, rostos queimados, olhar radiante ao observar em cada videira o amadurecimente daquele que será transformado num néctar divino. Mas, quando o próprio Baco se revolta com a terra que lhe fornece o seu reino e surge o míldio, a filoxera, o povo cansado e temente embora baixe a cabeça nunca baixa os braços e, sem se saber de onde, surge uma força invissivel e começa a batalha contra o inimigo da vinha.
Oh Douro! Douro que ouvis-te das tuas encostas o gemido de muitos homens, o choro de muitas mulheres, o grito de muitas crianças, o uivar dos lobos. Douro que viste o plantar de cada cepa, o atirar da primeira pedra para construir mais um patamar rochoso e dificil de trabalhar. Douro, agora ouves o trabalhar das máquinas, vês socalcos cada vez mais uniformes e menos pedregosos mas, ainda ouves homens e mulheres, crianças e à noite o uivar de animais, o cantar constante dos grilos, os gritos surdos das videiras a darem o melhor de si, os gemidos e gritos dos pesadelos daqueles que todos os dias se levantam e deitam tendo as tuas encostas e do que delas emanas na cabeça!
Oh Douro! Tua água que corre em direcção ao mar tanto vê, tanto ouve! Qual ninfa do Tejo se aproxima da beleza do teu serpentear? Qual trabalho humano se compara aquele que todos os anos é elaborado nas tuas ingremes encostas?
Podar, adubar, escavar, sulfatar, tratar, amar, aquelas cepas tortas e controcidas que, com o tempo, brotam as primeiras folhas seguidamente pequenos e frageis cachos indo em direcção a lindas vinhas pintadas de verde que as águas do Douro refletem para o céu tais ninfas saindo das profundezas da água servindo de inspiração e força invissivel ao povo douriense. Chega a vindima. Altura de trabalho redobrobado onde homens transportam nas costas vergadas mais que o seu próprio peso, todo o peso do Douro e as mulheres retiram das cepas os frutos divinos que serão a tentação de Baco e da própria Humanidade!
O Barco Rabelo tão pequeno sabe bem o poder das tuas águas, a força da tua corrente em direcção a um bom porto que leve o néctar do Douro para os quatro cantos do Mundo! Pequeno mas poderoso barco! As naus que descobriram mares desconhecidos eram grandes e imponentes carregavam com a fé de todo um país mas pelas águas do Douro navegava um pequeno barco que abrangia a fé, o suor, o sangue de um povo, o acalentar da sede de Deuses e da humanidade! Tanta diferença no tamanho mas transportam esperança e lágrimas por igual! E no cais, lenços brancos acenavam com a esperança de ver os navegadores novamente sem que a água lhes abafasse o último suspiro!
É num vai e vem constante de emoções que o comboio transporta as pessoas pelas tuas margens e os barcos pelas águas, oh Douro!
Oh Douro que abraças-te o medo, que lavas-te e refrescas-te tantos rostos queimados, que sacias-te a sede de tantos corpos doridos, nenhuma barra de ouro se compara ao teu valor, à tua beleza que se mistura nas águas do Atlântico mas mesmo assim em cada gota do teu caudal está tatuada com a beleza impar da vinha e do vinho! Douro, de que será feito o teu caudal? Somente pela água dos teus afluentes que correm para ti e deixam-se embrenhar pelas tuas encostas e da água que os Deuses mandam para e Terra? Ou também de lágrimas e suor, sangue e vinho, esperanças e trabalhos?
Sim Douro, tu és ouro! Ouro para quem olha para ti todos os dias. Aqueles que pelas tuas águas navegam sentem todo um passado doloroso, o grito abafado pela água daquelas pessoas que morreram sofucadas tanto pela água como pela terra! Enquanto o Tejo fica a ver navios, o Douro vê toda uma penóplia de emoções e labores!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Se as pedras da calçada falassem...


Se as pedras da calçada falassem,

Cantariam o som dos meus passos...

Passos que caminham errantes

Reflectindo o tempo que não volta...


Se as pedras da calçada falassem,

Diriam o sabor da chuva...

Do sol...

Das lágrimas...


Se as pedras da calçada falassem,

Cantariam tudo aquilo qua ainda há para dizes!

Como é dura a vida!

Como é dura a distância!


Se as pedras da calçada falassem,

Diriam a esta vil sociedade quem já nelas dormiu

Com o corpo rodeado de caixotes

E o coração de sofrimento.


Se as pedras da calçada falassem,

Espalhariam pelos quatro ventos

Quantos pés já viram sangrar...

Quantos olhos já viram chorar...


Se as pedras da calçada falassem,

Diriam quantos corpos enrolados em farrapos

Já se aconchegaram para descansar

Para olhar para o céu e voltar a acreditar.


Se as pedras da calçada falassem,

Conduziriam os pés que repousam em dinheiro

Para a mais escondida ruela

Onde existem pés sem sapato nem pele...


As pedras da calçada não falam.

Mesmo assim, toda a gente vê!

Toda a gente sabe aquilo que está escondido

Nas florestas de prédios!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Anjo sem Asas...


Meus olhos já não repousam nos socalcos do Douro...
Minha cabeça já não repousa no ombro do meu amigo...
Meus ouvidos já não escutam vozes familiares...
Meu coração já não é acalentado pelo aconchego de um abraço puro...

Sinto-me clandestina...
Longe de todos e de tudo aquilo que me preenche a alma...
O puzzle da minha vida está incompleto,
Faltam-lhe as peças de tudo aquilo que deixei para trás.
Daquilo de que sinto falta...

A minha voz tornou-se distante.
Meu olhar ancorou-se no horizonte.
Minha nau parou no tempo.
Não reconheço o meu “eu”...

Porquê esta saudade que me invade?
Porquê esta distância que nos separa?
Porquê esta sensação de vazio, de abandono?
Porquê o meu eterno e incessante porquê?

Sinto cada dia a tornar-se mais vazio...
Desci da montanha e agora dirijo-me para o fundo
Do mar...
De mim...
Do tempo...

Num novo habitat tento encontrar a felicidade.
Tento fintar a saudade...
Tento...
Mas torna-se difícil!
Sinto-me um peixe sem água,
Um pássaro sem céu,
Um Anjo sem asas...

Caminhei...


Caminhei...
Caminhei ao teu lado...
Mas seguimos rumos diferentes.
Voltei a caminhar...
Sozinha...
Voltaste a caminhar a meu lado...
Mas mesmo assim permaneço sozinha,
Clandestina na minha própria vida.

Sigo o meu caminho, caminhando lentamente
Na solidão da alma e da noite.
Estás a meu lado nesta caminhada,
Dás-me a mão para ultrapassar uma vicissitude,
Todavia, não te sinto presente em mim...
Caminhas, acompanhas os meus passos
E eu os teus...
Seguimos o mesmo caminho.
Seguimos diferentes sonhos.
Trilhamos o mesmo solo,
Avistamos diferentes horizontes...

Uma caminhada nos une,
Um caminho nos separa...

domingo, 31 de maio de 2009

Num navio de sonhos...


Num navio de sonhos
Naveguei num bem mundo real!
Ajeitando as velas
Aos meandros da vida,
Foi indubitável que naufragasse.

Encontrei na minha rota um Gigante
Não Adamastor,
Mas sim o destino...
Fiquei ancorada...
E, pouco a pouco, perdi de vista o horizonte.
Fiquei submersa.

Até que naufraguei!
Senti a água invadir minha nau...
E eu as forças a perder...
Tudo à minha volta perdeu a nitidez.
Tudo perdeu a razão...
A própria razão se perdeu...

Foi em noites de luar
Que coloquei minha nau ao relento.
Agora só restam as recordações,
Os sonhos e os desejos meus
Daquelas águas que queria romper...


Abracei o fogo.
Beijei o gelo.
Falei para o silêncio.
Li páginas em branco.
Escrevi sem tinta nem papel.
Olhei sem ver.
Ouvi sem escutar.
Tentei parar o tempo,
Mas a lua nasceu e com ela a escuridão.
A lua foi-se mas não a noite...
Perdi o sol...
Perdi o dia...
A noite abraça-me.
A escuridão acolhe-me em seus braços.
As trevas invadem o meu dia.
Espero por um amanhã,
Mas este também se avista negro...
Sem cor e sem alma...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Perdi-me...


Perdi-me dentro de mim!
Naquela confussão de pensamentos meus...
Nada tem sentido...
O chão deixou de ser seguro
E o ar suficiente...
As paredes encausulam-me...
As palavras perdem-se...
As lágrimas afogam-me...
Ouço silêncio no barulho…
Acompanhada…
Sinto-me sozinha!
Sinto-me distante de tudo.
Cheia de todo o nada!
O abismo coloca-se no meu caminho
E, é indubitavel que nele eu caia...
Tento fintar o futuro…
Agarrar-me ao presente…
Mas, existem naus no cais,
Lenços brancos na algibeira.


Silêncio...


Ao meu redor a multidão grita...
Agita-se...
O silêncio quebra-se
Para dar lugar ás vozes que rompem o ar.
Ouço o barulho que se levanta,
Que, ao meu redor, preenche o ar
Mas, nada escuto...
Tudo me parece distante e inalcancável.
Sinto o chão a fugir debaixo dos meus pés.
Sinto um muro construir-se à minha volta.
A minha nau a perder-se num oceano conhecido...
Há minha volta o sol brilha
Todavia, reina a escuridão...
Fecho os olhos
E, num ápice:
O silêncio...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A um passo da Felicidade


A vida dela não passava de uma grande monotonia. Todos os dias pareciam iguais: o ontem igual ao hoje; o hoje igual ao amanhã; era tudo simetricamente igual, uma rotina monótona e constante.
Sem dar conta, andava a fugir da sua própria vida. Andava em busca da felicidade, mas só conseguia mergulhar cada vez mais na solidão. Passava a vida a correr de um lugar para o outro, esquecendo-se de que o Mundo gira, esquecendo-se da passagem inexorável do tempo.
Naquele dia, como sucedera em tantos outros, foi a última a sair do escritório, onde estava sempre rodeada de papelada. Embora recebesse bem e tivesse um bom nível económico, a sua vida confundia-se com o trabalho. Ela não tinha vida própria. Já há muito tempo que tinha esquecido a sua vida e deixado trancar a sua felicidade num baú no fundo do oceano. Temia a solidão. Estar sozinha atormentava-a, por isso ela tentava compensar esse fardo pesado atulhando-se de trabalho. Cada vez mais… e mais…
À sua volta ela criara uma bola de cristal impenetrável e encarcerara-se nela. Embora tencionasse soltar-se, estava amarrada à lugubridade da monotonia da sua vida.
Antes de sair do escritório, deu uma olhadela minuciosa verificando se estava algum papel fora do sítio. A impecabilidade já lhe estava presa, com o passar do tempo habituara-se à perfeição no intuito de preencher os espaços em branco que a solidão fomentava na sua vida.
Fechou o escritório como sempre fazia. Naquele dia e sem saber porquê, ela estava diferente. Tinha uma sensação estranha dentro de si, que não conseguia explicar nem sequer compreender. Ao colocar os pés na calçada, foi inundada por uma luz diferente. A cidade à sua frente parecia outra, deixara de ter aquela luz artificial e parecia possuir uma luz própria e pura. Sentiu que os seus pensamentos se misturavam e se emaranhavam.
Pela primeira vez, desde há já imenso tempo, olhou para o céu. A lua, naquela noite, estava mais majestosa do que nunca, parecia irradiar uma luz diferente. Uma luz que a fez voltar ao passado e reviver os seus tempos de infância, tempos esses em que ela era feliz.
Em quantas noites como aquela ela se sentava ao colo do seu avô e ambos ficavam a admirar as estrelas! Aqueles pontos brilhantes no céu que a faziam transcender para outro Universo, em busca de outros Mundos, de novas aventuras! Naquele tempo, ela era feliz, sentia-se poderosa e dona de si mesma. Tinha o mundo na palma da mão e pensava que, a qualquer momento, bastar-lhe-ia estalar os dedos, e teria um Novo Mundo.
Ao lembrar-se da sua infância já distante não conseguiu evitar que uma pequena lágrima rolasse pela sua face. Lentamente regressou a si, como quem regressa de muitos dias de coma. Sentia-se perdida. O seu olhar estava distante, vazio, vidrado. Recordando-se da sua infância, era inevitável que a comparasse com a actualidade, dois planos totalmente diferentes: um, cheio de alegria, de cores, o outro cheio de sofrimento, pintado com tinta negra persistente.
Sentia-se exausta e as suas pernas começaram a fraquejar, caindo ao chão. Naquele momento, mil e uma imagens passaram-lhe pela cabeça. Ouviu as suas velhas gargalhadas vindas do fundo de um poço e lembrou-se de que não poderia odiar todas as rosas somente porque o espinho de uma dela se tinha espetado na sua frágil pele, atingindo-lhe a alma.
Se antes podia ser feliz, porque é que agora tinha de viver rodeada de sofrimento? Primeiramente acreditava num Mundo novo e encantado e assim era feliz; com o passar do tempo, esquecera esse Mundo, tornando-se infeliz.
Ergueu-se lentamente e decidiu ir em busca da felicidade. Aquela vida não era realmente a sua! Ela não tinha nascido para ficar trancada num armário que raramente se abria para ver as cores do Mundo. Finalmente compreendeu que, para ser feliz, tinha de embarcar num desses barcos estrambólicos e navegar entre os mares do sofrimento em busca de um bom porto, deixar de ser tímida e fechada e tornar-se numa nova mulher firme e intrépida.
Sim, ela alcançaria a felicidade se ganhasse coragem, asas e voasse, não esperando que a felicidade lhe batesse à porta de livre e espontânea vontade. Andava errante pelo labirinto da sua vida mas, agora ela tinha a firme certeza de encontrar a luz ao fundo do túnel. Bastava-lhe acreditar!

Tempo... Na busca de um sonho!

A Universidade é aquilo que queremos: um edifício com salas de aula e laboratórios, a separação das pessoas mais queridas... Pode ser simplesmente estudar, pode ser diversão ou a luta por um sonho...
Na busca de um sonho, nem sempre o tempo e o destino estão do nosso lado, tal como o vento que sopra, uma vezes contra, outras a favor das embarcações que navegam em alto mar. Na Universidade, cabe a cada um ajeitar as velas e encontrar o vento favorável para que a sua nau avance e ultrapasse o “Gigante Adamastor” que a ananké coloca no nosso caminho até chegar a um bom porto.
Estar na Universidade é um momento único, onde existe tempo para tudo: para estudar, para a diversão, para conhecer novas pessoas, para passear, para se fazer as coisas que anteriormente se faziam e, também, para ter novas experiências.
Numa cidade desconhecida, quanto mais se encasula dentro de quatro paredes mais o tempo custa a passar e mais doloroso é estar longe de tudo aquilo que nos é familiar... Por mais que o tempo se mostre doloroso, por mais portas que a vida tranque, por mais injusto que o Mundo pareça, temos de nos agarrar às coisas boas da vida, pois esta não tem só coisas más, por vezes somos nós que simplesmente esquecemos que elas existem. Como um dia afirmou Fernando Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo...”. São as experiências que vivemos que nos transformam naquilo que somos e seremos.
O tempo passado na Universidade nunca é tempo perdido, é sempre tempo ganho! Ganha-se autonomia, independência, mostra-nos o avançar do ingresso no mundo do trabalho e todas as consequências que isso acarreta.
Quando algo se vai embora, mesmo que seja por um determinado período de tempo, é que sentimos a falta que realmente nos faz, tal como a comida da mamã, dos amigos, das conversas triviais, do miar do gato da vizinha, da paisagem que dantes parecia tão monótona e banal... Agora torna-se algo que deixa nostalgia e, quando temos novamente acesso a elas, não podemos evitar que uma lágrima balance nos olhos...
O tempo passa e vai passando... Os ponteiros do relógio marcam um passo constante e ritmado indicando o passar dos dias... Um dia estamos a aprender o a, e, i, o, u, no dia a seguir já estamos debruçados no teorema de Pitágoras e, quando damos conta, até já se acabaram os exames nacionais do ensino secundário e ingressamos num Mundo completamente desconhecido, mas que, igualmente, passa depressa demais, mal deixando tempo para saborear cada dia!
Os nossos sonhos voam nas asas do tempo e, com ele, voamos nós também! Se agora é presente, daqui a um segundo é passado e o segundo seguinte passa de futuro a presente e deste a passado e assim sucessiva e monotonamente... Mas cabe a nós mudar cada dia, implantar nos sete dias da semana algo novo que torne cada dia especial e único, não só mais vinte e quatro horas vividas a caminho de um caixão que pouco a pouco (ou talvez não!) o fado vai talhando silenciosamente para nós.
Enquanto vivemos, não basta só olhar para um passado já vivido com obstáculos ultrapassados, nem para os obstáculos que no presente dificultam a nossa passagem, mas também para as barreiras que, muito provavelmente, amanhã estarão no nosso caminho... O passar do tempo não só acarreta momentos maus ou bons, também transporta uma nova caminhada e um novo sonho, com novos conhecimentos, uma vez que todos os dias aprendemos algo novo que ocupa o lugar da ignorância, mas mesmo assim: “de sábio e de louco todos temos um pouco”...
Quando a noite já vai alta é que cogitamos que, embora esta vida esteja a dar cabo de nós, haveremos de ser estudantes até morrer!

Tatuagem...


Sinto o meu corpo tatuado...
Tatuado com ferro em brasa!
Não imagens que eu escolhi
Mas marcas que me impuseram!

Cada tatuagem tem seu significado
Não de sorte, de amor,
Mas sim de desilusão, de sofrimento...
Constante...

A cada dia que passa
Mais me desiludo
Com este...
Com aquele...
Com todos...
Com Ninguém...

Sinto o corpo dorido
Mas, acima de tudo, a alma!
O meu corpo caminha no presente
Todavia, minh’alma está encurralada...

Encurralada em grades invisíveis
Feitas de oceano gelado
Que, no meu corpo, se transformam
Em marcas de fogo incandescente!

Sim! Estou cansada.
Cansada de tatuagens...
De desilusões...
Mas, porquê?

Porquê tanta desilusão?
Tanto sofrimento?
Tanta incerteza no caminhar?

As lágrimas que derramo
Não molham a face,
Mas queimam a alma...

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Sol na Tempestade


Tal como a semana precedente, a que agora estava a acabar também não lhe tinha corrido nada bem...
Como se não bastasse a azáfama constante de viver numa cidade (filas de trânsito, filas para pagar as contas, filas para fazer as compras, filas e mais filas) e andar assoberbada de trabalho, ainda tinha de levar com mau tempo que a deixara encurralada naquela cidade que nada lhe dizia.
Nevava torrencialmente quando saiu do centro de camionagem com o bilhete do autocarro cancelado devido ao mau tempo. Dirigiu-se para casa com o casaco e a mala ensopados de neve. Que mais lhe podia acontecer naquela semana?
Ao chegar a casa tomou um banho quente, pois o frio tinha-lhe enregelado os ossos. Quando saiu da água vestiu o pijama, mesmo sendo ainda apenas quatro da tarde. Mais que nunca sentia-se perdida... Sozinha... Na casa reinava um silêncio que a incomodava e a fazia sentir-se ainda mais abandonada... Ouvia o próprio som dos seus passos... Com as lágrimas a baloiçarem nos olhos, entrou no quarto e ligou o aquecedor, seguindo-se o computador só para colocar música no intuito de abafar aquele silêncio tão perturbador. Sentia-se sem forças e cansada e, embora tivesse mil e uma coisas que ainda precisavam de ser finalizadas e outras tantas iniciadas, decidiu pegar num álbum de fotografias e sentar-se na cama...
Em cada fotografia demorava imenso tempo... Eram as fotografias que mais a tinham marcado. Fotografias daqueles momentos eternos: de festas de aniversário, de visitas de estudo, de momentos que embora não passassem disso mesmo foram vividos com a máxima intensidade... E as fotografias confirmavam isso mesmo, tanto pelos sorrisos, como pelas maluquices, pela união, pela amizade... Caso algum dia a memória falhasse, existiriam aqueles pedaços de papel que suportariam os momentos passados e felizes!
Uma a uma, as fotografias iam sendo observadas e cada uma a levava novamente ao passado, ao preciso momento em que aquela fotografia tinha sido tirada. Parecia que tinha voltado ao passado! As imagens e as palavras passavam pela sua mente e ela captava tudo. O filme da sua vida estava todo ali, naquelas fotografias onde a máquina fotográfica passara a ser a de filmar. Não existia “Acção” nem “Corta”, não havia personagens do bem nem do mal, não existia um guião a cumprir, apenas existia o momento e tudo era feito com naturalidade e simplicidade.
O tempo foi passando e, quando deu pelo tempo, o ponteiro aproximava-se das dez da noite. Olhou pela janela e reparou que a neve tinha parado de cair do céu, mas toda a paisagem que estava no seu campo de visão estava completamente branca. Apesar do quarto já estar suficientemente quente, ela sentiu um frio estranho apoderar-se do seu corpo. Foi então que se vestiu e pegou na sua mala, onde colocou um chá quente, e saiu de casa.
Ao atravessar a porta da rua, um arrepio subiu-lhe pela espinha acima, mas mesmo assim ela saiu de casa e caminhou pela cidade... Àquela hora e com aquele tempo toda a cidade estava deserta. Pela primeira vez teve tempo de ver aquelas montras que nunca tinha oportunidade de ver, ou mesmo lojas que não sabia que existiam. Viu a cidade com outros olhos.
Caminhava errante, sem destino... Estava ao sabor do vento. Sentia a neve debaixo dos seus pés mas não sentia frio. A sua cabeça ainda estava presa nas fotografias. Quando deu por si já estava no ponto mais alto, donde conseguia ver toda a cidade coberta de neve e, pouco a pouco, foi-se libertando, abstraindo de tudo e deixou-se embrenhar pela paisagem que a circundava...
Foi então que pensou que a vida era feita de dias de terríveis tempestades e dias de Sol. Indubitavelmente, ela estava a atravessar uma terrível tempestade, mas existiram momentos, mesmo em pleno Inverno, que foram dias de Sol... Até a mais pequena flor precisa de dias de chuva para se tornar mais forte e crescer e ela não era excepção: eram os dias de chuva que a colocavam a reflectir sobre a vida e a faziam crescer, ver a vida com outros olhos. Foi então que olhou para o céu e concluiu:
Se não existissem os dias de terríveis tempestades nunca se daria a verdadeira importância e valor aos dias de Sol!

Serra do Marão


Elevando-se acima do horizonte,
Ergue-se majestosa,
Forte e imponente,

Marcada pela erosão do tempo.
Rugas são vincadas com o passar
Do tempo...

Fortaleza natural,
Advinda das entranhas da terra,
Onde de rubro fogo
Se transforma em negra massa rochosa.

És tu, Marão,
Serra com força e garra nortenha.
Delícia dos olhos daqueles
Que por ti passam...

Ora envolvida num puro manto,
Ora esconderijo do sol escaldante.
Límpidas águas correm nas tuas vertentes,
Indo saciar a sede
Dos que passam...
E dos que ficam...

Entrelinhas...


Escrevo nas entrelinhas
Os meus mais recatados desejos...
Puras recordações outrora vividas,
Mas para sempre guardadas.

As entrelinhas são o meu esconderijo!
Aquilo que sou
Ou o que queria ser...
De outra maneira não me conheço
Talvez nem assim seja eu
Mas alguém que se aproxima
Do que sou...
Do que queria ser...

Nas estrelinhas viajo ao mundo dos sonhos...
Azulo deste mundo
Que não passa de um terrível pesadelo.
Tenho asas para voar...
A imaginação não tem limites...

As entrelinhas são a minha janela aberta
Para outro reino...
Minhas mãos guiam-me pelas entrelinhas
E, mesmo no meu quarto,
Viajo para lá do Olimpo...





Nas entrelinhas eu escrevo
Ao relento…
Onde a escuridão reina
E, eis que vem a luz da lua
Para me iluminar…

É nas entrelinhas que escrevo
Pois nas linhas não tenho direito…
Minhas insignificantes palavras
Nada dizem…
Nada são…
Apenas são a sombra
De quem a vida se ressume


Ás entrelinhas…

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Aqui!


Aqui tudo me é estranho...
Sinto que não pertenço a este mundo.
Todavia, este mundo também não me pertence.

Não sei a que mundo pertenço!
A que dicionário pertencem
Minhas insignificantes palavras...
Sei que tudo digo num silêncio
E nada em mil frases que profira...
As palavras latejam na minha mente
Embora, nada signifiquem...

Este mundo é-me estranho...
Distante...
Tudo me parece fútil...
Irrisório...
Mas, ao mesmo tempo,
Tão familiar!
Tão acolhedor!...

Tenho medo deste mundo!
Nada me diz nada.
E tudo se transforma em nada
Dentro de mim!

É deste mundo que falo,
Pois outro não conheço!

Realidade ou Ilusão?


Será real o que sinto ou mera ilusão?
Serei eu real ou simples ser que passa neste mundo,
Como névoa passageira numa manhã de Verão?
Esta incerteza que me assola e me consome
A cada dia que passa mais emaranhado transforma,
Meu pensamento...

Vejo a minha sombra reflectida no chão.
Mas apenas é o meu corpo,
Onde estará a alma?
Será negra como a sombra que vejo?
Ou transparente tal lago de água límpida?

Ai! Tomara eu ser quem não sou...
Estou cansada de ser eu...
Estas dúvidas que vêm
Como ondas num areal,
Transformaram o meu ser em mil pedaços...

Embora despedaçada, continuo a ser eu...
Aquele ser frágil
Que deixou na infância a alegria de viver.
Aquele passado inexorável e lindo
Onde a felicidade preenchia cada segundo
Daquela inocente existência...

Agora, neste insignificante presente
Olho para trás e vejo quem fui...
Tento olhar para a frente
Na vã esperança de ver quem serei,
Mas entre mim e o futuro existe uma barreira
Que apenas posso transpor vivendo o presente...

Mão Amiga


Cortaram-me as asas...
Perdi a bússola
Que me indicava o caminho a seguir...
Meus braços
Perderam a razão de se erguer...
Minha boca
Perdeu a razão de se abrir...
E as palavras,
De saírem...

Meu olhar
Perdeu o brilho...
Meus passos,
O rumo...
A vela da minha nau rompeu-se...
Agora, sem vontade de caminhar,
Amparo-me nas recordações...

Mas o que são elas?
Pedaços de mim
Que fui deixando cair...
Vida vivida...
Páginas do livro escritas
Para mais tarde
Quando passarem à minha frente,
Tal película de filme,
Minhas lágrimas rolarem pela face
E as sombras do passado
Se erguerem ao meu lado,
Enquanto a mão amiga e invisível
Me indica o caminho a tomar,
Dá-me força e conchego
Para os novos desafios enfrentar!

Infinito...



De olhar fixo na escuridão
Fito o inalcançável infinito...
Infinito...
Como queria tocar no infinito!
Mas entre mim e ele
Existe uma mancha escura
Protegida por uma bola de cristal impenetrável
Onde reina a escuridão
E a luz do sol reflecte o seu brilho.

Infinito...
Meta inatingível e desejada...
Infinito...
Mero sonho sonhado.
Pesadelo real daqueles que o desejam
Sem nunca o atingirem...
Infinito...
Pedra lançada ao oceano.
Horizonte Perdido...
Infinito...
Só ele mesmo:
Infinito...