segunda-feira, 2 de março de 2009

O Sol na Tempestade


Tal como a semana precedente, a que agora estava a acabar também não lhe tinha corrido nada bem...
Como se não bastasse a azáfama constante de viver numa cidade (filas de trânsito, filas para pagar as contas, filas para fazer as compras, filas e mais filas) e andar assoberbada de trabalho, ainda tinha de levar com mau tempo que a deixara encurralada naquela cidade que nada lhe dizia.
Nevava torrencialmente quando saiu do centro de camionagem com o bilhete do autocarro cancelado devido ao mau tempo. Dirigiu-se para casa com o casaco e a mala ensopados de neve. Que mais lhe podia acontecer naquela semana?
Ao chegar a casa tomou um banho quente, pois o frio tinha-lhe enregelado os ossos. Quando saiu da água vestiu o pijama, mesmo sendo ainda apenas quatro da tarde. Mais que nunca sentia-se perdida... Sozinha... Na casa reinava um silêncio que a incomodava e a fazia sentir-se ainda mais abandonada... Ouvia o próprio som dos seus passos... Com as lágrimas a baloiçarem nos olhos, entrou no quarto e ligou o aquecedor, seguindo-se o computador só para colocar música no intuito de abafar aquele silêncio tão perturbador. Sentia-se sem forças e cansada e, embora tivesse mil e uma coisas que ainda precisavam de ser finalizadas e outras tantas iniciadas, decidiu pegar num álbum de fotografias e sentar-se na cama...
Em cada fotografia demorava imenso tempo... Eram as fotografias que mais a tinham marcado. Fotografias daqueles momentos eternos: de festas de aniversário, de visitas de estudo, de momentos que embora não passassem disso mesmo foram vividos com a máxima intensidade... E as fotografias confirmavam isso mesmo, tanto pelos sorrisos, como pelas maluquices, pela união, pela amizade... Caso algum dia a memória falhasse, existiriam aqueles pedaços de papel que suportariam os momentos passados e felizes!
Uma a uma, as fotografias iam sendo observadas e cada uma a levava novamente ao passado, ao preciso momento em que aquela fotografia tinha sido tirada. Parecia que tinha voltado ao passado! As imagens e as palavras passavam pela sua mente e ela captava tudo. O filme da sua vida estava todo ali, naquelas fotografias onde a máquina fotográfica passara a ser a de filmar. Não existia “Acção” nem “Corta”, não havia personagens do bem nem do mal, não existia um guião a cumprir, apenas existia o momento e tudo era feito com naturalidade e simplicidade.
O tempo foi passando e, quando deu pelo tempo, o ponteiro aproximava-se das dez da noite. Olhou pela janela e reparou que a neve tinha parado de cair do céu, mas toda a paisagem que estava no seu campo de visão estava completamente branca. Apesar do quarto já estar suficientemente quente, ela sentiu um frio estranho apoderar-se do seu corpo. Foi então que se vestiu e pegou na sua mala, onde colocou um chá quente, e saiu de casa.
Ao atravessar a porta da rua, um arrepio subiu-lhe pela espinha acima, mas mesmo assim ela saiu de casa e caminhou pela cidade... Àquela hora e com aquele tempo toda a cidade estava deserta. Pela primeira vez teve tempo de ver aquelas montras que nunca tinha oportunidade de ver, ou mesmo lojas que não sabia que existiam. Viu a cidade com outros olhos.
Caminhava errante, sem destino... Estava ao sabor do vento. Sentia a neve debaixo dos seus pés mas não sentia frio. A sua cabeça ainda estava presa nas fotografias. Quando deu por si já estava no ponto mais alto, donde conseguia ver toda a cidade coberta de neve e, pouco a pouco, foi-se libertando, abstraindo de tudo e deixou-se embrenhar pela paisagem que a circundava...
Foi então que pensou que a vida era feita de dias de terríveis tempestades e dias de Sol. Indubitavelmente, ela estava a atravessar uma terrível tempestade, mas existiram momentos, mesmo em pleno Inverno, que foram dias de Sol... Até a mais pequena flor precisa de dias de chuva para se tornar mais forte e crescer e ela não era excepção: eram os dias de chuva que a colocavam a reflectir sobre a vida e a faziam crescer, ver a vida com outros olhos. Foi então que olhou para o céu e concluiu:
Se não existissem os dias de terríveis tempestades nunca se daria a verdadeira importância e valor aos dias de Sol!

Serra do Marão


Elevando-se acima do horizonte,
Ergue-se majestosa,
Forte e imponente,

Marcada pela erosão do tempo.
Rugas são vincadas com o passar
Do tempo...

Fortaleza natural,
Advinda das entranhas da terra,
Onde de rubro fogo
Se transforma em negra massa rochosa.

És tu, Marão,
Serra com força e garra nortenha.
Delícia dos olhos daqueles
Que por ti passam...

Ora envolvida num puro manto,
Ora esconderijo do sol escaldante.
Límpidas águas correm nas tuas vertentes,
Indo saciar a sede
Dos que passam...
E dos que ficam...

Entrelinhas...


Escrevo nas entrelinhas
Os meus mais recatados desejos...
Puras recordações outrora vividas,
Mas para sempre guardadas.

As entrelinhas são o meu esconderijo!
Aquilo que sou
Ou o que queria ser...
De outra maneira não me conheço
Talvez nem assim seja eu
Mas alguém que se aproxima
Do que sou...
Do que queria ser...

Nas estrelinhas viajo ao mundo dos sonhos...
Azulo deste mundo
Que não passa de um terrível pesadelo.
Tenho asas para voar...
A imaginação não tem limites...

As entrelinhas são a minha janela aberta
Para outro reino...
Minhas mãos guiam-me pelas entrelinhas
E, mesmo no meu quarto,
Viajo para lá do Olimpo...





Nas entrelinhas eu escrevo
Ao relento…
Onde a escuridão reina
E, eis que vem a luz da lua
Para me iluminar…

É nas entrelinhas que escrevo
Pois nas linhas não tenho direito…
Minhas insignificantes palavras
Nada dizem…
Nada são…
Apenas são a sombra
De quem a vida se ressume


Ás entrelinhas…