quarta-feira, 15 de abril de 2009

A um passo da Felicidade


A vida dela não passava de uma grande monotonia. Todos os dias pareciam iguais: o ontem igual ao hoje; o hoje igual ao amanhã; era tudo simetricamente igual, uma rotina monótona e constante.
Sem dar conta, andava a fugir da sua própria vida. Andava em busca da felicidade, mas só conseguia mergulhar cada vez mais na solidão. Passava a vida a correr de um lugar para o outro, esquecendo-se de que o Mundo gira, esquecendo-se da passagem inexorável do tempo.
Naquele dia, como sucedera em tantos outros, foi a última a sair do escritório, onde estava sempre rodeada de papelada. Embora recebesse bem e tivesse um bom nível económico, a sua vida confundia-se com o trabalho. Ela não tinha vida própria. Já há muito tempo que tinha esquecido a sua vida e deixado trancar a sua felicidade num baú no fundo do oceano. Temia a solidão. Estar sozinha atormentava-a, por isso ela tentava compensar esse fardo pesado atulhando-se de trabalho. Cada vez mais… e mais…
À sua volta ela criara uma bola de cristal impenetrável e encarcerara-se nela. Embora tencionasse soltar-se, estava amarrada à lugubridade da monotonia da sua vida.
Antes de sair do escritório, deu uma olhadela minuciosa verificando se estava algum papel fora do sítio. A impecabilidade já lhe estava presa, com o passar do tempo habituara-se à perfeição no intuito de preencher os espaços em branco que a solidão fomentava na sua vida.
Fechou o escritório como sempre fazia. Naquele dia e sem saber porquê, ela estava diferente. Tinha uma sensação estranha dentro de si, que não conseguia explicar nem sequer compreender. Ao colocar os pés na calçada, foi inundada por uma luz diferente. A cidade à sua frente parecia outra, deixara de ter aquela luz artificial e parecia possuir uma luz própria e pura. Sentiu que os seus pensamentos se misturavam e se emaranhavam.
Pela primeira vez, desde há já imenso tempo, olhou para o céu. A lua, naquela noite, estava mais majestosa do que nunca, parecia irradiar uma luz diferente. Uma luz que a fez voltar ao passado e reviver os seus tempos de infância, tempos esses em que ela era feliz.
Em quantas noites como aquela ela se sentava ao colo do seu avô e ambos ficavam a admirar as estrelas! Aqueles pontos brilhantes no céu que a faziam transcender para outro Universo, em busca de outros Mundos, de novas aventuras! Naquele tempo, ela era feliz, sentia-se poderosa e dona de si mesma. Tinha o mundo na palma da mão e pensava que, a qualquer momento, bastar-lhe-ia estalar os dedos, e teria um Novo Mundo.
Ao lembrar-se da sua infância já distante não conseguiu evitar que uma pequena lágrima rolasse pela sua face. Lentamente regressou a si, como quem regressa de muitos dias de coma. Sentia-se perdida. O seu olhar estava distante, vazio, vidrado. Recordando-se da sua infância, era inevitável que a comparasse com a actualidade, dois planos totalmente diferentes: um, cheio de alegria, de cores, o outro cheio de sofrimento, pintado com tinta negra persistente.
Sentia-se exausta e as suas pernas começaram a fraquejar, caindo ao chão. Naquele momento, mil e uma imagens passaram-lhe pela cabeça. Ouviu as suas velhas gargalhadas vindas do fundo de um poço e lembrou-se de que não poderia odiar todas as rosas somente porque o espinho de uma dela se tinha espetado na sua frágil pele, atingindo-lhe a alma.
Se antes podia ser feliz, porque é que agora tinha de viver rodeada de sofrimento? Primeiramente acreditava num Mundo novo e encantado e assim era feliz; com o passar do tempo, esquecera esse Mundo, tornando-se infeliz.
Ergueu-se lentamente e decidiu ir em busca da felicidade. Aquela vida não era realmente a sua! Ela não tinha nascido para ficar trancada num armário que raramente se abria para ver as cores do Mundo. Finalmente compreendeu que, para ser feliz, tinha de embarcar num desses barcos estrambólicos e navegar entre os mares do sofrimento em busca de um bom porto, deixar de ser tímida e fechada e tornar-se numa nova mulher firme e intrépida.
Sim, ela alcançaria a felicidade se ganhasse coragem, asas e voasse, não esperando que a felicidade lhe batesse à porta de livre e espontânea vontade. Andava errante pelo labirinto da sua vida mas, agora ela tinha a firme certeza de encontrar a luz ao fundo do túnel. Bastava-lhe acreditar!

Tempo... Na busca de um sonho!

A Universidade é aquilo que queremos: um edifício com salas de aula e laboratórios, a separação das pessoas mais queridas... Pode ser simplesmente estudar, pode ser diversão ou a luta por um sonho...
Na busca de um sonho, nem sempre o tempo e o destino estão do nosso lado, tal como o vento que sopra, uma vezes contra, outras a favor das embarcações que navegam em alto mar. Na Universidade, cabe a cada um ajeitar as velas e encontrar o vento favorável para que a sua nau avance e ultrapasse o “Gigante Adamastor” que a ananké coloca no nosso caminho até chegar a um bom porto.
Estar na Universidade é um momento único, onde existe tempo para tudo: para estudar, para a diversão, para conhecer novas pessoas, para passear, para se fazer as coisas que anteriormente se faziam e, também, para ter novas experiências.
Numa cidade desconhecida, quanto mais se encasula dentro de quatro paredes mais o tempo custa a passar e mais doloroso é estar longe de tudo aquilo que nos é familiar... Por mais que o tempo se mostre doloroso, por mais portas que a vida tranque, por mais injusto que o Mundo pareça, temos de nos agarrar às coisas boas da vida, pois esta não tem só coisas más, por vezes somos nós que simplesmente esquecemos que elas existem. Como um dia afirmou Fernando Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo...”. São as experiências que vivemos que nos transformam naquilo que somos e seremos.
O tempo passado na Universidade nunca é tempo perdido, é sempre tempo ganho! Ganha-se autonomia, independência, mostra-nos o avançar do ingresso no mundo do trabalho e todas as consequências que isso acarreta.
Quando algo se vai embora, mesmo que seja por um determinado período de tempo, é que sentimos a falta que realmente nos faz, tal como a comida da mamã, dos amigos, das conversas triviais, do miar do gato da vizinha, da paisagem que dantes parecia tão monótona e banal... Agora torna-se algo que deixa nostalgia e, quando temos novamente acesso a elas, não podemos evitar que uma lágrima balance nos olhos...
O tempo passa e vai passando... Os ponteiros do relógio marcam um passo constante e ritmado indicando o passar dos dias... Um dia estamos a aprender o a, e, i, o, u, no dia a seguir já estamos debruçados no teorema de Pitágoras e, quando damos conta, até já se acabaram os exames nacionais do ensino secundário e ingressamos num Mundo completamente desconhecido, mas que, igualmente, passa depressa demais, mal deixando tempo para saborear cada dia!
Os nossos sonhos voam nas asas do tempo e, com ele, voamos nós também! Se agora é presente, daqui a um segundo é passado e o segundo seguinte passa de futuro a presente e deste a passado e assim sucessiva e monotonamente... Mas cabe a nós mudar cada dia, implantar nos sete dias da semana algo novo que torne cada dia especial e único, não só mais vinte e quatro horas vividas a caminho de um caixão que pouco a pouco (ou talvez não!) o fado vai talhando silenciosamente para nós.
Enquanto vivemos, não basta só olhar para um passado já vivido com obstáculos ultrapassados, nem para os obstáculos que no presente dificultam a nossa passagem, mas também para as barreiras que, muito provavelmente, amanhã estarão no nosso caminho... O passar do tempo não só acarreta momentos maus ou bons, também transporta uma nova caminhada e um novo sonho, com novos conhecimentos, uma vez que todos os dias aprendemos algo novo que ocupa o lugar da ignorância, mas mesmo assim: “de sábio e de louco todos temos um pouco”...
Quando a noite já vai alta é que cogitamos que, embora esta vida esteja a dar cabo de nós, haveremos de ser estudantes até morrer!

Tatuagem...


Sinto o meu corpo tatuado...
Tatuado com ferro em brasa!
Não imagens que eu escolhi
Mas marcas que me impuseram!

Cada tatuagem tem seu significado
Não de sorte, de amor,
Mas sim de desilusão, de sofrimento...
Constante...

A cada dia que passa
Mais me desiludo
Com este...
Com aquele...
Com todos...
Com Ninguém...

Sinto o corpo dorido
Mas, acima de tudo, a alma!
O meu corpo caminha no presente
Todavia, minh’alma está encurralada...

Encurralada em grades invisíveis
Feitas de oceano gelado
Que, no meu corpo, se transformam
Em marcas de fogo incandescente!

Sim! Estou cansada.
Cansada de tatuagens...
De desilusões...
Mas, porquê?

Porquê tanta desilusão?
Tanto sofrimento?
Tanta incerteza no caminhar?

As lágrimas que derramo
Não molham a face,
Mas queimam a alma...