
A vida dela não passava de uma grande monotonia. Todos os dias pareciam iguais: o ontem igual ao hoje; o hoje igual ao amanhã; era tudo simetricamente igual, uma rotina monótona e constante.
Sem dar conta, andava a fugir da sua própria vida. Andava em busca da felicidade, mas só conseguia mergulhar cada vez mais na solidão. Passava a vida a correr de um lugar para o outro, esquecendo-se de que o Mundo gira, esquecendo-se da passagem inexorável do tempo.
Naquele dia, como sucedera em tantos outros, foi a última a sair do escritório, onde estava sempre rodeada de papelada. Embora recebesse bem e tivesse um bom nível económico, a sua vida confundia-se com o trabalho. Ela não tinha vida própria. Já há muito tempo que tinha esquecido a sua vida e deixado trancar a sua felicidade num baú no fundo do oceano. Temia a solidão. Estar sozinha atormentava-a, por isso ela tentava compensar esse fardo pesado atulhando-se de trabalho. Cada vez mais… e mais…
À sua volta ela criara uma bola de cristal impenetrável e encarcerara-se nela. Embora tencionasse soltar-se, estava amarrada à lugubridade da monotonia da sua vida.
Antes de sair do escritório, deu uma olhadela minuciosa verificando se estava algum papel fora do sítio. A impecabilidade já lhe estava presa, com o passar do tempo habituara-se à perfeição no intuito de preencher os espaços em branco que a solidão fomentava na sua vida.
Fechou o escritório como sempre fazia. Naquele dia e sem saber porquê, ela estava diferente. Tinha uma sensação estranha dentro de si, que não conseguia explicar nem sequer compreender. Ao colocar os pés na calçada, foi inundada por uma luz diferente. A cidade à sua frente parecia outra, deixara de ter aquela luz artificial e parecia possuir uma luz própria e pura. Sentiu que os seus pensamentos se misturavam e se emaranhavam.
Pela primeira vez, desde há já imenso tempo, olhou para o céu. A lua, naquela noite, estava mais majestosa do que nunca, parecia irradiar uma luz diferente. Uma luz que a fez voltar ao passado e reviver os seus tempos de infância, tempos esses em que ela era feliz.
Em quantas noites como aquela ela se sentava ao colo do seu avô e ambos ficavam a admirar as estrelas! Aqueles pontos brilhantes no céu que a faziam transcender para outro Universo, em busca de outros Mundos, de novas aventuras! Naquele tempo, ela era feliz, sentia-se poderosa e dona de si mesma. Tinha o mundo na palma da mão e pensava que, a qualquer momento, bastar-lhe-ia estalar os dedos, e teria um Novo Mundo.
Ao lembrar-se da sua infância já distante não conseguiu evitar que uma pequena lágrima rolasse pela sua face. Lentamente regressou a si, como quem regressa de muitos dias de coma. Sentia-se perdida. O seu olhar estava distante, vazio, vidrado. Recordando-se da sua infância, era inevitável que a comparasse com a actualidade, dois planos totalmente diferentes: um, cheio de alegria, de cores, o outro cheio de sofrimento, pintado com tinta negra persistente.
Sentia-se exausta e as suas pernas começaram a fraquejar, caindo ao chão. Naquele momento, mil e uma imagens passaram-lhe pela cabeça. Ouviu as suas velhas gargalhadas vindas do fundo de um poço e lembrou-se de que não poderia odiar todas as rosas somente porque o espinho de uma dela se tinha espetado na sua frágil pele, atingindo-lhe a alma.
Se antes podia ser feliz, porque é que agora tinha de viver rodeada de sofrimento? Primeiramente acreditava num Mundo novo e encantado e assim era feliz; com o passar do tempo, esquecera esse Mundo, tornando-se infeliz.
Ergueu-se lentamente e decidiu ir em busca da felicidade. Aquela vida não era realmente a sua! Ela não tinha nascido para ficar trancada num armário que raramente se abria para ver as cores do Mundo. Finalmente compreendeu que, para ser feliz, tinha de embarcar num desses barcos estrambólicos e navegar entre os mares do sofrimento em busca de um bom porto, deixar de ser tímida e fechada e tornar-se numa nova mulher firme e intrépida.
Sim, ela alcançaria a felicidade se ganhasse coragem, asas e voasse, não esperando que a felicidade lhe batesse à porta de livre e espontânea vontade. Andava errante pelo labirinto da sua vida mas, agora ela tinha a firme certeza de encontrar a luz ao fundo do túnel. Bastava-lhe acreditar!
Sem dar conta, andava a fugir da sua própria vida. Andava em busca da felicidade, mas só conseguia mergulhar cada vez mais na solidão. Passava a vida a correr de um lugar para o outro, esquecendo-se de que o Mundo gira, esquecendo-se da passagem inexorável do tempo.
Naquele dia, como sucedera em tantos outros, foi a última a sair do escritório, onde estava sempre rodeada de papelada. Embora recebesse bem e tivesse um bom nível económico, a sua vida confundia-se com o trabalho. Ela não tinha vida própria. Já há muito tempo que tinha esquecido a sua vida e deixado trancar a sua felicidade num baú no fundo do oceano. Temia a solidão. Estar sozinha atormentava-a, por isso ela tentava compensar esse fardo pesado atulhando-se de trabalho. Cada vez mais… e mais…
À sua volta ela criara uma bola de cristal impenetrável e encarcerara-se nela. Embora tencionasse soltar-se, estava amarrada à lugubridade da monotonia da sua vida.
Antes de sair do escritório, deu uma olhadela minuciosa verificando se estava algum papel fora do sítio. A impecabilidade já lhe estava presa, com o passar do tempo habituara-se à perfeição no intuito de preencher os espaços em branco que a solidão fomentava na sua vida.
Fechou o escritório como sempre fazia. Naquele dia e sem saber porquê, ela estava diferente. Tinha uma sensação estranha dentro de si, que não conseguia explicar nem sequer compreender. Ao colocar os pés na calçada, foi inundada por uma luz diferente. A cidade à sua frente parecia outra, deixara de ter aquela luz artificial e parecia possuir uma luz própria e pura. Sentiu que os seus pensamentos se misturavam e se emaranhavam.
Pela primeira vez, desde há já imenso tempo, olhou para o céu. A lua, naquela noite, estava mais majestosa do que nunca, parecia irradiar uma luz diferente. Uma luz que a fez voltar ao passado e reviver os seus tempos de infância, tempos esses em que ela era feliz.
Em quantas noites como aquela ela se sentava ao colo do seu avô e ambos ficavam a admirar as estrelas! Aqueles pontos brilhantes no céu que a faziam transcender para outro Universo, em busca de outros Mundos, de novas aventuras! Naquele tempo, ela era feliz, sentia-se poderosa e dona de si mesma. Tinha o mundo na palma da mão e pensava que, a qualquer momento, bastar-lhe-ia estalar os dedos, e teria um Novo Mundo.
Ao lembrar-se da sua infância já distante não conseguiu evitar que uma pequena lágrima rolasse pela sua face. Lentamente regressou a si, como quem regressa de muitos dias de coma. Sentia-se perdida. O seu olhar estava distante, vazio, vidrado. Recordando-se da sua infância, era inevitável que a comparasse com a actualidade, dois planos totalmente diferentes: um, cheio de alegria, de cores, o outro cheio de sofrimento, pintado com tinta negra persistente.
Sentia-se exausta e as suas pernas começaram a fraquejar, caindo ao chão. Naquele momento, mil e uma imagens passaram-lhe pela cabeça. Ouviu as suas velhas gargalhadas vindas do fundo de um poço e lembrou-se de que não poderia odiar todas as rosas somente porque o espinho de uma dela se tinha espetado na sua frágil pele, atingindo-lhe a alma.
Se antes podia ser feliz, porque é que agora tinha de viver rodeada de sofrimento? Primeiramente acreditava num Mundo novo e encantado e assim era feliz; com o passar do tempo, esquecera esse Mundo, tornando-se infeliz.
Ergueu-se lentamente e decidiu ir em busca da felicidade. Aquela vida não era realmente a sua! Ela não tinha nascido para ficar trancada num armário que raramente se abria para ver as cores do Mundo. Finalmente compreendeu que, para ser feliz, tinha de embarcar num desses barcos estrambólicos e navegar entre os mares do sofrimento em busca de um bom porto, deixar de ser tímida e fechada e tornar-se numa nova mulher firme e intrépida.
Sim, ela alcançaria a felicidade se ganhasse coragem, asas e voasse, não esperando que a felicidade lhe batesse à porta de livre e espontânea vontade. Andava errante pelo labirinto da sua vida mas, agora ela tinha a firme certeza de encontrar a luz ao fundo do túnel. Bastava-lhe acreditar!
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