quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ás vezes...
...corremos do tempo
... paramos e olhamos para o mundo que nos rodeia
... sentimos medo, frio
... pintamos este mundo de preto
... queremos estar noutro lugar
...desejamos afastar de nós as nuvens que tapam o Sol
... almejamos tirar as pedras do caminho
...o silêncio é um estorvo
...as palavas incomodam
...as lágrimas soltam-se dos olhos e rolam pela face
...o sorriso escondido revela-se
...sentimo-nos entre as brumas da solidão
...estou sozinha
...a distância separa-nos

Mas sempre...
... o tempo alcança-nos
... o mundo permanece em constantes mudanças
... sentimos saudade
...o mundo terá um arco-íris de cores
... voltamos ás raizes, ao ponto de partida
...o Sol permanecerá a iluminar o nosso caminho entre a escuridão
...existirão curvas na estrada, uma linha do horizonte para alcançar
...o silêncio permanecerá quando as palavras não falam por si
...as palavras acalentarão corações
...os olhos serão o espelho da alma e as lágrimas o seu coração
... um olhar puro permanecerá
...estaremos acompanhados por Anjos da Guarda, por Amigos
...estarás comigo
...uma força invissível nos une e unirá!

Olho para o relógio e reparo que já está a anoitecer, são quase dezanove horas mas mesmo assim ainda sinto os raios solares a embaterem contra a persiana do meu quarto com toda a sua intensidade, pelas suas pequenas aberturas o sol penetra no quatro iluminando-o e fazendo pequenos circulos nas paredes, nos móveis, no meu pequeno mundo!
Nestes finais de tarde em que o dia se vai misturando lentamente com a noite e o Sol dança com a Lua numa dança constante mas sempre diferente, tornando os dias maiores ou menores, dou comigo a olhar para o sol que penetra no meu quarto e na na minha alma e a pensar como é possível que em dias iluminados como aquele que agora está a acabar existem pessoas que permaneçam na escuridão, rodeada de trevas e nuvens carregadas que a qualquer momento podem rebentar espalhando pelas quatro cantos chuvas torrenciais e trovões assustadores?
Olho ao meu redor e descubro coisas novas, certos pormenores que nunca tinha reparado dantes! Coisas de criança, do meu passado que permanecem ainda expostas triunfantemente em cima dos móveis e/ou enfeitando as quatro paredes rosa-pálido que constroem o meu habitat.
O sol não pára de descer em direcção à linha do horizonte! Mais um dia se aproxima do fim e outro do começo numa rotina monotona e constante. Inspiro fundo, abro a persiana da janela rasgada na parede e deixo que os últimos raios solares invadam o ar fresco do quarto. Olho para a Serra do Marão situada mesmo em frente à minha janela e reparo como é linda com o Sol a esconder-se atrás daquela montanha rochosa repleta de carqueixa e histórias. A janela do meu quarto é a minha ponte para o resto do mundo, por ela deixo o meu casulo, ganho asas para voar.
Enquanto contemplo a paisagem pergunto a mim mesma quantas vezes precisamos de respirar para sermos felizes e deixar que, mesmo sem sol o nosso dia seja iluminado? Não importa quantas vezes respiramos, não importa em quantos dias exista o nascer e o pôr do Sol uma vez que são aqueles momentos que ficamos sem respirar, em que poucos segundos parecem uma ocupar uma vida inteira, são aqueles dias em que o Sol não brilha no céu mas mesmo assim existem momentos iluminados que tornam uma vida especial, fazem com que mais uma página das nossas vidas seja escrita em tinta permanente e letras bem garrafais!
Respiro lentamente.... Sinto o ar ainda abafado do final da tarde invadir as minhas narinas indo na auto-estrada em direcção aos pulmões. Todos respiram! Inspirar.... Expirar... Inspirar... Expirar... Constante, inconciente, diária, ritmicamente... Ás vezes forte e acelerada outras vezes calma e paulatinamente. Todavia, surgem momentos em que ouvimos a celebre expressão: “Cortar a respiração!” e sentimo-la! Sentimo-la na alma! No corpo! Sentimo-la quando o medo nos invade, quando uma mão quente passeia pelo corpo vestido somente de pele, quando a maré vasa se torna maré cheia, ...
O Sol já se escondeu por completo! As estrelas começam a aparecer primeiramente como infimos pontos no céu mas que com o surgir da escuridão vão ganhando forma e tornando-se maiores. Sinto que com a escuridão surgem restos de solidão, de saudade. A noite vai caindo e sei que as cidades ganham uma nova luz tal como o meu quarto, sugem pequenos sóis ligados por cabos que vão dando vida à escuridão.
Um dia está a chegar ao fim, ou estará a começar? Sei que estou sem rumo e sonho um sonho acordada em que a Lua se transforma em Sol e tu vens, transformando-se a Lua nela mesma, cortando a repiração!

Douro d'Ouro


Verdes socalcos, uvas a ganhar cor e sabor, corpos doridos, sol escaldante que ilumina o Douro.
Mãos calejadas, pernas cansadas, costas vergadas, rostos queimados, olhar radiante ao observar em cada videira o amadurecimente daquele que será transformado num néctar divino. Mas, quando o próprio Baco se revolta com a terra que lhe fornece o seu reino e surge o míldio, a filoxera, o povo cansado e temente embora baixe a cabeça nunca baixa os braços e, sem se saber de onde, surge uma força invissivel e começa a batalha contra o inimigo da vinha.
Oh Douro! Douro que ouvis-te das tuas encostas o gemido de muitos homens, o choro de muitas mulheres, o grito de muitas crianças, o uivar dos lobos. Douro que viste o plantar de cada cepa, o atirar da primeira pedra para construir mais um patamar rochoso e dificil de trabalhar. Douro, agora ouves o trabalhar das máquinas, vês socalcos cada vez mais uniformes e menos pedregosos mas, ainda ouves homens e mulheres, crianças e à noite o uivar de animais, o cantar constante dos grilos, os gritos surdos das videiras a darem o melhor de si, os gemidos e gritos dos pesadelos daqueles que todos os dias se levantam e deitam tendo as tuas encostas e do que delas emanas na cabeça!
Oh Douro! Tua água que corre em direcção ao mar tanto vê, tanto ouve! Qual ninfa do Tejo se aproxima da beleza do teu serpentear? Qual trabalho humano se compara aquele que todos os anos é elaborado nas tuas ingremes encostas?
Podar, adubar, escavar, sulfatar, tratar, amar, aquelas cepas tortas e controcidas que, com o tempo, brotam as primeiras folhas seguidamente pequenos e frageis cachos indo em direcção a lindas vinhas pintadas de verde que as águas do Douro refletem para o céu tais ninfas saindo das profundezas da água servindo de inspiração e força invissivel ao povo douriense. Chega a vindima. Altura de trabalho redobrobado onde homens transportam nas costas vergadas mais que o seu próprio peso, todo o peso do Douro e as mulheres retiram das cepas os frutos divinos que serão a tentação de Baco e da própria Humanidade!
O Barco Rabelo tão pequeno sabe bem o poder das tuas águas, a força da tua corrente em direcção a um bom porto que leve o néctar do Douro para os quatro cantos do Mundo! Pequeno mas poderoso barco! As naus que descobriram mares desconhecidos eram grandes e imponentes carregavam com a fé de todo um país mas pelas águas do Douro navegava um pequeno barco que abrangia a fé, o suor, o sangue de um povo, o acalentar da sede de Deuses e da humanidade! Tanta diferença no tamanho mas transportam esperança e lágrimas por igual! E no cais, lenços brancos acenavam com a esperança de ver os navegadores novamente sem que a água lhes abafasse o último suspiro!
É num vai e vem constante de emoções que o comboio transporta as pessoas pelas tuas margens e os barcos pelas águas, oh Douro!
Oh Douro que abraças-te o medo, que lavas-te e refrescas-te tantos rostos queimados, que sacias-te a sede de tantos corpos doridos, nenhuma barra de ouro se compara ao teu valor, à tua beleza que se mistura nas águas do Atlântico mas mesmo assim em cada gota do teu caudal está tatuada com a beleza impar da vinha e do vinho! Douro, de que será feito o teu caudal? Somente pela água dos teus afluentes que correm para ti e deixam-se embrenhar pelas tuas encostas e da água que os Deuses mandam para e Terra? Ou também de lágrimas e suor, sangue e vinho, esperanças e trabalhos?
Sim Douro, tu és ouro! Ouro para quem olha para ti todos os dias. Aqueles que pelas tuas águas navegam sentem todo um passado doloroso, o grito abafado pela água daquelas pessoas que morreram sofucadas tanto pela água como pela terra! Enquanto o Tejo fica a ver navios, o Douro vê toda uma penóplia de emoções e labores!