quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Olho para o relógio e reparo que já está a anoitecer, são quase dezanove horas mas mesmo assim ainda sinto os raios solares a embaterem contra a persiana do meu quarto com toda a sua intensidade, pelas suas pequenas aberturas o sol penetra no quatro iluminando-o e fazendo pequenos circulos nas paredes, nos móveis, no meu pequeno mundo!
Nestes finais de tarde em que o dia se vai misturando lentamente com a noite e o Sol dança com a Lua numa dança constante mas sempre diferente, tornando os dias maiores ou menores, dou comigo a olhar para o sol que penetra no meu quarto e na na minha alma e a pensar como é possível que em dias iluminados como aquele que agora está a acabar existem pessoas que permaneçam na escuridão, rodeada de trevas e nuvens carregadas que a qualquer momento podem rebentar espalhando pelas quatro cantos chuvas torrenciais e trovões assustadores?
Olho ao meu redor e descubro coisas novas, certos pormenores que nunca tinha reparado dantes! Coisas de criança, do meu passado que permanecem ainda expostas triunfantemente em cima dos móveis e/ou enfeitando as quatro paredes rosa-pálido que constroem o meu habitat.
O sol não pára de descer em direcção à linha do horizonte! Mais um dia se aproxima do fim e outro do começo numa rotina monotona e constante. Inspiro fundo, abro a persiana da janela rasgada na parede e deixo que os últimos raios solares invadam o ar fresco do quarto. Olho para a Serra do Marão situada mesmo em frente à minha janela e reparo como é linda com o Sol a esconder-se atrás daquela montanha rochosa repleta de carqueixa e histórias. A janela do meu quarto é a minha ponte para o resto do mundo, por ela deixo o meu casulo, ganho asas para voar.
Enquanto contemplo a paisagem pergunto a mim mesma quantas vezes precisamos de respirar para sermos felizes e deixar que, mesmo sem sol o nosso dia seja iluminado? Não importa quantas vezes respiramos, não importa em quantos dias exista o nascer e o pôr do Sol uma vez que são aqueles momentos que ficamos sem respirar, em que poucos segundos parecem uma ocupar uma vida inteira, são aqueles dias em que o Sol não brilha no céu mas mesmo assim existem momentos iluminados que tornam uma vida especial, fazem com que mais uma página das nossas vidas seja escrita em tinta permanente e letras bem garrafais!
Respiro lentamente.... Sinto o ar ainda abafado do final da tarde invadir as minhas narinas indo na auto-estrada em direcção aos pulmões. Todos respiram! Inspirar.... Expirar... Inspirar... Expirar... Constante, inconciente, diária, ritmicamente... Ás vezes forte e acelerada outras vezes calma e paulatinamente. Todavia, surgem momentos em que ouvimos a celebre expressão: “Cortar a respiração!” e sentimo-la! Sentimo-la na alma! No corpo! Sentimo-la quando o medo nos invade, quando uma mão quente passeia pelo corpo vestido somente de pele, quando a maré vasa se torna maré cheia, ...
O Sol já se escondeu por completo! As estrelas começam a aparecer primeiramente como infimos pontos no céu mas que com o surgir da escuridão vão ganhando forma e tornando-se maiores. Sinto que com a escuridão surgem restos de solidão, de saudade. A noite vai caindo e sei que as cidades ganham uma nova luz tal como o meu quarto, sugem pequenos sóis ligados por cabos que vão dando vida à escuridão.
Um dia está a chegar ao fim, ou estará a começar? Sei que estou sem rumo e sonho um sonho acordada em que a Lua se transforma em Sol e tu vens, transformando-se a Lua nela mesma, cortando a repiração!

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