domingo, 17 de janeiro de 2010

(espera título)

Sozinha na noite, olha para a escuridão que reina no quarto. Lá fora as gotas grossas da chuva esborracham-se contra as grandes janelas rasgadas nas paredes caiadas de branco. Sabe que a cidade, pouco a pouco vai ganhando vida e os pequenos sóis da noite vão ofuscando lentamente a escuridão que se vai erguendo.
Tic-Tac... Tic-Tac... Cantava o relógio. Tum-Tum... Tum-Tum... Sentia o seu coração bater bem forte dentro do peito. Ela olhava ora para as paredes ora para as gotas de chuva grossa que embatiam copiosamente contra os vidros da janela e escorriam para o parapeito enquanto se sentia cada vez mais sozinha e um pequeno arrepio de frio subiu-lhe pela espinha acima, fazendo-a encolher-se.
Mas, mais que a escuridão, mais que uma sombra, mais que o frio, a saudade vai-se apoderando dela! Surge inevitavelmente aquela nostalgia dos tempos passados. Momentos épicos? Momentos grandíloquos? Certamente! Mas, acima de tudo inesquecíveis!
A calma da noite fá-la chorar em silêncio. Liga o computador a fim de colocar alguma música no intuito de tentar abafar o som ofegante da sua respiração… Todavia, o som que lentamente vai invadindo o quarto fá-la sair do momento presente transpondo-a para o passado ainda tão próximo…. Relembra todos aqueles momentos vividos. Tinha a certeza que muitas pessoas jamais iam viver momentos como aqueles… Lembra-se com nostalgia daqueles vezes que chorou, daqueles momentos que se riu, do quanto mudou, do quanto fez que a mudança existisse, do quanto se orgulhou de estar ao lado dos seus bons amigos e o quanto eles se orgulharam de a ter a seu lado. Não existe escala de melhores amigos todavia uma coisa é certa: alguns deles pode-se sempre contar, nem que seja somente para falar ou quem sabe para passar algum tempo apreciando o silêncio ou mesmo caminhar durante 20min onde na conversa tudo o que vem á baila.
Em dias cinzentos, em que o mundo desmorona á sua volta, a maré sobe deixando-a encurralada, resta aquela vontade de ir, correr o mundo, partir dali, onde tudo mexe, tudo tem o seu ritmo, tudo é diferente e distante daquilo que é realmente seu e querer voltar para o seu verdadeiro mundo, onde tudo tem sentido, tudo tem um grande significado.
O fado grita a saudade, o calor de uma fogueira apela por um ombro amigo, as ondas do mar agitam-se tal turbilhão de mil e uma emoções vividas… Naquele momento, ela sentia-se como uma pequena nau ao sabor do oceano turbulento indo embater a qualquer momento contra o Gigante Adamastor. Ou será que já o tinha encontrado? A saudade pior que um delito é ela mesmo, a pura nostalgia que a aprisiona em grades invisíveis, sem forma, sem sabor, sem cheiro, vai-se acumulando dia após dia sem pedir permissão…
Uma vontade de chorar incessantemente nasce do fundo do seu ser… Para lá dos vidros da janela a chuva cai continuamente, parece que acompanha as suas lágrimas, o próprio tempo reflecte o seu estado de alma…
Fecha os olhos e tenta concentrar-se na música porém é uma tarefa impossível… Ao fechar os olhos as imagens dos tempos vividos e felizes surgem espontaneamente á sua frente tal película de filme sem guião. Como a sua vida estava virada do avesso! Naquele tempo nada temia, não havia gigante que a derrubasse, naquele momento o próprio presente era um obstáculo, uma incógnita onde a cada momento tenta romper a saudade, fintar a nostalgia tal nau que tenta encontrar vento favorável para chegar a um bom porto. Mas nem sempre o Olimpo conspira favoravelmente sendo inevitável que surjam dias em que o sorriso desvanece e o brilho no olhar teime em não aparecer…
No fundo do ser, ela sabia que a distância não ia alterar nada dessa amizade embora o tempo tente sempre apagar, a vontade perdura! Aquela vontade inexplicável de querer estar ao lado dos amigos, onde tudo é perfeito e, independentemente do lugar em que se esteja está-se no nosso verdadeiro mundo, onde as inquebráveis raízes de uma amizade se fortalecem a cada momento que passa!
Através da janela, olha para o horizonte, dentro de si ouve os murmúrios dos tempos vividos… Respira fundo, sabe que foge o passado todavia, nunca é tarde para o recordar e revive-los!
“A vida é sempre a perder…” Ela sabe-o bem! Mas, uma coisa é sempre a ganhar: a saudade! Aquela nostalgia do passado…
- É bom ficar nostálgica – Afirmou em voz alta deixando as palavras penetrar pelo silêncio enquanto limpava as lágrimas á manga esquerda da camisola – Significa que os bons momentos vividos no passado fazem muita falta no presente! …

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ao calor de uma fogueira


A chama da fogueira crepitava, enchendo toda a cozinha de um calor aconchegante e uma luz trémula. A noite já tinha caído, embora os ponteiros do relógio ainda marcassem 19h e 17min…
Sentada num banco pequeno feito manualmente pelo seu avô, Teresa olhava para a chama. Deixava-se hipnotizar pela dança constante das labaredas, pela sua cor. À medida que o tempo passava mais quente ficava o espaço envolvente e ela deixava-se embrenhar por esse calor, pela dança.
Fechou os olhos. O tempo ia passando lentamente, mas Teresa nem deu por isso. Sentia-se entorpecida com o calor da fogueira e demasiado meditabunda nos seus pensamentos.
“Porque é que o ontem é tão divergente do hoje? Como será o amanhã? Estarei na mesma aqui? Não sei… Mas quem saberá? Estará o nosso destino realmente traçado antes mesmo de nascermos ou somos nós que o vamos escrevendo à medida que tomamos as nossas atitudes? Sei quem fui, mas não sei o que sou e muito menos aquilo que serei, as decisões que tomarei, os laços que criarei…”
Do lado de fora da janela, a chuva ia caindo copiosamente do céu, sem cessar, e o vento ia levantando do chão as folhas pesadas pela água, enquanto abanava os ramos das árvores despidas de folhagem. Por um momento, ela levantou-se, colocou mais uma acha na fogueira e fez uma infusão bem quente.
“O tempo passa… Muito caminho se percorre com os nossos próprios passos. Todavia, a beleza da caminhada está naqueles que nos acompanham nem que seja à distância! Quantas vezes nos revoltamos contra a distância? Contra a inevitável separação? Porém, se essa distância dói, significa que os laços criados foram fortes e, de uma maneira ou de outra, marcam-nos. Para se afirmar que se perdeu alguém, é necessário sentir uma ligação genuína! Quantas pessoas entram na nossa vida e nem damos por elas? Entram e saem e apenas na nossa memória ficam os seus traços, até mesmo o nome se esquece. Por outro lado, existem pessoas que se tornam imortais no nosso pensamento. Cada gesto, cada expressão, cada olhar, o seu calor, perfume, voz…“
Com a fogueira já quase apagada, Teresa voltou a si. Entre as suas mãos tinha a infusão já fria e nos seus olhos tinha pequenas lágrimas a balançar. Reacendeu a fogueira, não pelo frio, mas sim pelo simples prazer de se sentir hipnotizada e assim fugir da realidade mesquinha em que vivia. Sentia saudades, isso era certo! Saudade de todos aqueles que foram, pouco a pouco, aparecendo na sua vida. Inicialmente, pessoas com quem ela mal falava, mas que rapidamente se converteram em pessoas pelas quais ela chora.
Na rua, um cão ladrava à passagem de um carro. Dentro das quatro paredes apenas se ouvia o crepitar da chama. Teresa olhava para a dança das labaredas e sentia a sua alma voar! À sua volta reinava a escuridão, a única luz era a fogueira que continuava a agitar-se formando sombras fantasmagóricas nas paredes, nos móveis.
Os ponteiros do relógio já se aproximavam das 21h. Teresa levantou-se do banco, vagueou pela casa como se esta lhe fosse estranha, um fantasma… Sentia-se clandestina ali dentro, trancada naquelas paredes tingidas de nívea. Uma a uma, todas as divisões da casa ficaram iluminadas. Iluminadas com uma luz artificial, uma luz que deriva de um emaranhado de fios. Emaranhado… Era assim que ela sentia o seu pensamento. Num labirinto desordenado sem início nem fim.
Caminhava paulatinamente pela casa. Percorreu cada divisão, na casa de banho retirou aquilo que pretendia, no quarto vestiu uma camisa de noite azul, longa de cetim, pegou numa moldura e saiu deixando a porta aberta. Se até obter o que almejava ela ia iluminando a casa, ao caminhar novamente para o calor da fogueira fazia o inverso: apagava as luzes, imergindo o seu habitat novamente nas trevas.
Entrou na cozinha, descalça, sentido o frio do azulejo beijar-lhe os pés e subir por ela acima. Sentou-se novamente no banco mesmo em frente à fogueira. Ali encontrava-se novamente: ela, a fogueira e a escuridão…
Olhava para a imagem a preto e branco que as labaredas iluminavam. Uma fotografia tirada há imenso tempo… Fotografia que ela guardara sempre à sua cabeceira. Um a um ela foi tirando os comprimidos da pequena caixa branca, colocando-os em cima das suas pernas. Por cada um que colocava na boca, lembrava-se do rosto dos seus amigos, das boas recordações que levava consigo. Iria deixar saudade? Iriam verter uma lágrima por ela? Isso Teresa não sabia.
Bebia água… Sentia o líquido envolver o comprimido e ir descendo pelo esófago até ao estômago… Tinha conhecimento da admiração que iria causar a sua atitude em todas as pessoas que conhecia. Todavia, mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer! A menina dócil, simpática, querida… também tinha sentimentos e já há imenso tempo que ela estava saturada: farta de monotonia, da sociedade mesquinha que a rodeava. Definitivamente: nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos depois netos, morrer velhinha, cheia de mil e uma doenças, não estava nos seus planos.
Olhava ora para a fogueira, ora para a fotografia. As imagens à sua volta estavam a ficar turvas, desfocadas. Começava a sentir-se sem forças. Cada vez menos… As restantes forças utilizou-as para apertar a moldura contra peito.
- No fundo do mar jazem os outros, os que lá ficaram. Em dias cinzentos descanso eterno lá encontraram. - sussurrou Teresa.
Lá fora a noite já ia longa. Escura, cinzenta… As nuvens carregadas deixavam prever que mais chuva iria cair do céu a qualquer instante. Os cães uivavam. Os ventos tornavam-se mais fortes. Lá longe, um relâmpago rasgou os céus de alto a baixo espalhando a sua luz pela escuridão e o seu som ensurdecedor pelo silêncio da noite.
Ao lado do corpo cadavérico abraçado a uma moldura, a fogueira ia perdendo o brilho e, pouco a pouco, a dança ia perdendo o entusiasmo…

Navegar em mim...


A tarde já há muito se foi
Agora, resta a escuridão da noite que me embala,
Aconchega como o seio materno,
O cantar, na Primavera, dos pássaros.

Embalada na noite
Entre o corpo e a alma…
Entre o dormir e estar desperta,
Vejo naus beijando as águas frias do Oceano…
Lá também é noite…
Também a Lua é a sua guia
E as estrelas não mais que olhares brilhantes,
Encharcados em lágrimas das pessoas que em Terra estão!
Choram por não terem também partido?
Choram com saudades do ente querido?
Choram pelo ventre vazio?
Choram pela boca que, estridentemente, berra, faminta?
Não sei…

Cada segundo que passa no relógio
É um ano na minha nau
Que invade mares desconhecidos…
Será mesmo nau?
Ou será um pequeno barco de papel?

Navega…
Navega…
Desvenda o desconhecido…
Aquele desconhecido de dentro de mim!
Tenho medo…
Medo do que não conheço…
Pânico de mim!
Não me conheço, não sei quem sou…
Apenas vejo o que quero ver
De mim e do Mundo!

Sentada num café...



Sentada numa mesa do café mesmo em frente à grande janela rasgada para a rua principal, vejo as pessoas a correr de um lado para outro.
Uma correria desenfreada… Será somente por causa da chuva e do vento que se faz sentir nesta tarde? A cidade encontra-se iluminada com mil e uma luzinhas de Natal, metade das pessoas passa e nem repara, a outra metade encontra-se em casa, abrigada do frio que se faz sentir.
Pessoas para cá, pessoas para lá… Cabeça baixa, uma mão segura um guarda-chuva, a outra sacolas, ou mesmo aconchega o cachecol que teima esvoaçar ao vento. São raras as cabeças que se erguem a e admiram o que está a sua volta.
O café encontra-se praticamente vazio. Eu, observando as pessoas a passarem na rua enquanto mexo ritmicamente um carioca de limão; dois senhores de fato e gravata sentados à mesa mais distante, com chávenas de café e dossiers de papéis pousados em cima da minúscula mesa redonda, mexendo descontroladamente os braços enquanto falam: ora sussurrando, ora em plenos pulmões invadindo todo o espaço; na mesa mais junto ao balcão, um casal com uma filha pequena, enquanto a criança (não mais que cinco anos de idade) toma o seu copo de leite, a mãe fala ao telemóvel e o pai lê descontraidamente o jornal; na mesa à direita da minha, duas raparigas desfolham uma daquelas revistas sem interesse cujo tema central é a vida deste e daquele, e do outro que dormiu com fulano, cheia de fotografias de famosos. Sem sombra de dúvida, estão a divertir-se!
Às vezes ouço o som da televisão, outras vezes a voz alterada dos dois senhores, ou mesmo a senhora a falar com a sua amiga ao telemóvel. Todavia, são os gritos histéricos das duas jovens (com os seus catorze/quinze anos) ao meu lado, cuja conversa ouço plenamente bem, que me fazem sorrir. E pensar…
- Ai, este é tão lindo! Por ele ia até à Inglaterra… – suspira uma.
- Olha, este é português e participa naquela telenovela… - afirma outra convictamente.
Eu ri. Sorri da conversa delas. Daquelas conversas sem nexo que se tem em plena “idade do armário”, onde aquelas pessoas que aparecem na capa das revistas ou na televisão com deslumbrantes sorrisos rasgados de orelha a orelha (mas na maioria das vezes falsos!) são os verdadeiros heróis, campeões dos ecrãs, marca de determinada telenovela ou mesmo de um canal televisivo.
Gritos vêm dos lados do balcão… Olho. Nesse mesmo instante vejo a mão da mãe erguer-se indo parar directamente na face direita da filha. Entre o choro abafado ouve-se um “ligo-te já!”. A senhora levanta-se e dirige-se apressadamente para a casa de banho. Estaria ela chateada por a filha ter vazado o copo de leite sujando a camisola cor-de-rosa que envergava ou pelo facto de ter de desligar desajeitadamente a chamada? O pai envergonhado levanta-se, dirige-se para o balcão, pede desculpa pelo incómodo, paga a conta e espera que elas cheguem. Quando isso acontece, os três saem pela porta corrediça do café. Já lá fora, enquanto o pai abre um guarda-chuva preto, a mãe pega no telemóvel para retomar a chamada inesperadamente interrompida. Até que desaparecem do meu campo de visão permitido pela grande janela de vidro.
Olho à minha volta… Exceptuando a senhora com os seus quarenta anos, de avental à volta da cintura e um pouco anafada, mais ninguém parecia reparar no que acabou de acontecer: os dois senhores permanecem compenetrados num montão de papéis, as duas jovens riem alegremente enquanto folheiam a revista…
O tempo passa… A senhora de avental, atrás do seu balcão redondo, concentra-se no ecrã televisivo onde um daqueles programas de Natal passa.
Lá fora a chuva cessa. Os dois homens arrumam, pagam a conta e saem ouvindo-se um dócil:
“- Voltem sempre, doutores!”.
Olho para eles enquanto saem…. De fato e gravata, ambos. Isso faz deles doutores? Sendo assim, quem anda de fato e gravata é doutor… Indubitavelmente, andar assim vestido impõe respeito, contudo, não passam de bélicos de escritório uma vez que o uso da gravata (cravat) é oriundo de cruéis mercenários “croatas” que, antes de partirem para o combate, colocavam lenços atados com um nó em torno do pescoço.
O meu telemóvel toca… Deixo-o tocar, nem olho para o ecrã para ver quem está do outro lado da chamada… Deixo Can You Feel the Love, de Elton John, invadir o espaço quase deserto do café.
Na mesa ao lado, as raparigas olham para mim estupefactas. A chamada acaba. Permanecem a olhar para mim. Olho para elas e reparo que ambas estão excessivamente maquilhadas, ou será excesso de parvoíce? Talvez a mistura das duas: uma reflectindo-se na outra!
Continuam a olhar para mim com desdém. Será pelo facto de não ser “cool”, não ter Tokio Hotel ou mesmo D’ZRT como toque de chamada no meu telemóvel? Será pelo facto de não ter as unhas roídas até ao sabugo como ambas tinham? Ou por ainda continuar a mexer ritmicamente o carioca sem ainda o ter provado? Não sei…
A revista acaba. Ambas levantam-se, dirigem-se para o balcão e despertam a senhora que quase entra em transe olhando para o programa que passa na pequena caixa colocada num canto do café.
O meu telemóvel volta a espalhar novamente a mesma música pelo café enquanto elas saem com sorrisinhos acanhados no rosto. Estando elas fora do café, ri eu dentro: a revista cai, encharcando-se! Incontestavelmente, uma catástrofe para elas…
Só eu fico sentada numa mesa daquele café. A senhora vê o seu programa na televisão enquanto come um chocolate.
O tempo voa… Lá fora já só se vêem vultos e luzes acesas. O programa acaba e começam as notícias.
Levanto-me da cadeira, visto o casaco colocado na cadeira ao meu lado e as luvas. Pago a conta daquele carioca que nem sequer provei. A senhora sorri para mim enquanto me dá o troco, deixando ver os seus dentes com resíduos de chocolate.
Saio do café aconchegando em torno do pescoço o cachecol, deixo-me envolver pela escuridão que reina na rua, pela mesquinhez das pessoas apressadas que ainda deambulam pela rua como robots programados por esta ou aquela marca ou mesmo publicidade para adquirir determinado produto, enquanto o vento frio enregela-me os ossos…