quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ao calor de uma fogueira


A chama da fogueira crepitava, enchendo toda a cozinha de um calor aconchegante e uma luz trémula. A noite já tinha caído, embora os ponteiros do relógio ainda marcassem 19h e 17min…
Sentada num banco pequeno feito manualmente pelo seu avô, Teresa olhava para a chama. Deixava-se hipnotizar pela dança constante das labaredas, pela sua cor. À medida que o tempo passava mais quente ficava o espaço envolvente e ela deixava-se embrenhar por esse calor, pela dança.
Fechou os olhos. O tempo ia passando lentamente, mas Teresa nem deu por isso. Sentia-se entorpecida com o calor da fogueira e demasiado meditabunda nos seus pensamentos.
“Porque é que o ontem é tão divergente do hoje? Como será o amanhã? Estarei na mesma aqui? Não sei… Mas quem saberá? Estará o nosso destino realmente traçado antes mesmo de nascermos ou somos nós que o vamos escrevendo à medida que tomamos as nossas atitudes? Sei quem fui, mas não sei o que sou e muito menos aquilo que serei, as decisões que tomarei, os laços que criarei…”
Do lado de fora da janela, a chuva ia caindo copiosamente do céu, sem cessar, e o vento ia levantando do chão as folhas pesadas pela água, enquanto abanava os ramos das árvores despidas de folhagem. Por um momento, ela levantou-se, colocou mais uma acha na fogueira e fez uma infusão bem quente.
“O tempo passa… Muito caminho se percorre com os nossos próprios passos. Todavia, a beleza da caminhada está naqueles que nos acompanham nem que seja à distância! Quantas vezes nos revoltamos contra a distância? Contra a inevitável separação? Porém, se essa distância dói, significa que os laços criados foram fortes e, de uma maneira ou de outra, marcam-nos. Para se afirmar que se perdeu alguém, é necessário sentir uma ligação genuína! Quantas pessoas entram na nossa vida e nem damos por elas? Entram e saem e apenas na nossa memória ficam os seus traços, até mesmo o nome se esquece. Por outro lado, existem pessoas que se tornam imortais no nosso pensamento. Cada gesto, cada expressão, cada olhar, o seu calor, perfume, voz…“
Com a fogueira já quase apagada, Teresa voltou a si. Entre as suas mãos tinha a infusão já fria e nos seus olhos tinha pequenas lágrimas a balançar. Reacendeu a fogueira, não pelo frio, mas sim pelo simples prazer de se sentir hipnotizada e assim fugir da realidade mesquinha em que vivia. Sentia saudades, isso era certo! Saudade de todos aqueles que foram, pouco a pouco, aparecendo na sua vida. Inicialmente, pessoas com quem ela mal falava, mas que rapidamente se converteram em pessoas pelas quais ela chora.
Na rua, um cão ladrava à passagem de um carro. Dentro das quatro paredes apenas se ouvia o crepitar da chama. Teresa olhava para a dança das labaredas e sentia a sua alma voar! À sua volta reinava a escuridão, a única luz era a fogueira que continuava a agitar-se formando sombras fantasmagóricas nas paredes, nos móveis.
Os ponteiros do relógio já se aproximavam das 21h. Teresa levantou-se do banco, vagueou pela casa como se esta lhe fosse estranha, um fantasma… Sentia-se clandestina ali dentro, trancada naquelas paredes tingidas de nívea. Uma a uma, todas as divisões da casa ficaram iluminadas. Iluminadas com uma luz artificial, uma luz que deriva de um emaranhado de fios. Emaranhado… Era assim que ela sentia o seu pensamento. Num labirinto desordenado sem início nem fim.
Caminhava paulatinamente pela casa. Percorreu cada divisão, na casa de banho retirou aquilo que pretendia, no quarto vestiu uma camisa de noite azul, longa de cetim, pegou numa moldura e saiu deixando a porta aberta. Se até obter o que almejava ela ia iluminando a casa, ao caminhar novamente para o calor da fogueira fazia o inverso: apagava as luzes, imergindo o seu habitat novamente nas trevas.
Entrou na cozinha, descalça, sentido o frio do azulejo beijar-lhe os pés e subir por ela acima. Sentou-se novamente no banco mesmo em frente à fogueira. Ali encontrava-se novamente: ela, a fogueira e a escuridão…
Olhava para a imagem a preto e branco que as labaredas iluminavam. Uma fotografia tirada há imenso tempo… Fotografia que ela guardara sempre à sua cabeceira. Um a um ela foi tirando os comprimidos da pequena caixa branca, colocando-os em cima das suas pernas. Por cada um que colocava na boca, lembrava-se do rosto dos seus amigos, das boas recordações que levava consigo. Iria deixar saudade? Iriam verter uma lágrima por ela? Isso Teresa não sabia.
Bebia água… Sentia o líquido envolver o comprimido e ir descendo pelo esófago até ao estômago… Tinha conhecimento da admiração que iria causar a sua atitude em todas as pessoas que conhecia. Todavia, mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer! A menina dócil, simpática, querida… também tinha sentimentos e já há imenso tempo que ela estava saturada: farta de monotonia, da sociedade mesquinha que a rodeava. Definitivamente: nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos depois netos, morrer velhinha, cheia de mil e uma doenças, não estava nos seus planos.
Olhava ora para a fogueira, ora para a fotografia. As imagens à sua volta estavam a ficar turvas, desfocadas. Começava a sentir-se sem forças. Cada vez menos… As restantes forças utilizou-as para apertar a moldura contra peito.
- No fundo do mar jazem os outros, os que lá ficaram. Em dias cinzentos descanso eterno lá encontraram. - sussurrou Teresa.
Lá fora a noite já ia longa. Escura, cinzenta… As nuvens carregadas deixavam prever que mais chuva iria cair do céu a qualquer instante. Os cães uivavam. Os ventos tornavam-se mais fortes. Lá longe, um relâmpago rasgou os céus de alto a baixo espalhando a sua luz pela escuridão e o seu som ensurdecedor pelo silêncio da noite.
Ao lado do corpo cadavérico abraçado a uma moldura, a fogueira ia perdendo o brilho e, pouco a pouco, a dança ia perdendo o entusiasmo…

Sem comentários: