sábado, 29 de novembro de 2008

O Verdadeiro valor


O Mundo gira. O tempo passa. Os ponteiros do relógio teimam em permanecer constante e monotonamente em voltas de 360.º graus.
Vejo o tempo passar. Ele passa... e vai passando... Mas, por mais que me esforce, não consigo compreender o valor que actualmente se dá àquilo que nos rodeia.
Porque é que o petróleo vale tanto dinheiro? As pessoas VIP serão felizes por aparecerem nas capas das revistas? Ou mesmo por possuírem carros e jóias que lhes custaram milhões? Se são felizes, será uma felicidade verdadeira?
Aparecem nas capas das revistas com um sorriso forçado, falso, só por possuírem rios de dinheiro, um carro topo de gama, diamantes e safiras no guarda-jóias, uma lista infindável de cidades e países que já visitaram, uma agenda assoberbada de festas... Mas, por dentro estarão realmente felizes? O seu dinheiro comprou realmente tudo quanto queriam? Poderá alguém olhar-lhes nos olhos e perceber o que se passa no seu interior, sem olhar primeiro para a sua recheada carteira, ou conta bancária? Não!
Às vezes pergunto a mim mesma se as pessoas que vivem em cima do seu pedestal conseguem olhar para baixo e ver o outro lado do mundo que as rodeia. Um mundo repleto de tristeza, de dor, de sofrimento...
Quantas crianças, neste mundo, terão acesso a comida diversificada em quantidade e qualidade? Quantos idosos terão com quem conversar durante vinte e quatro horas? Quantas crianças ainda não conhecem o amor dos pais? Quantos animais ainda não conhecem uma mão suave? Quantas mulheres ainda andam de cabeça baixa e olhos cheios de lágrimas?
Para estas questões e muitas mais ainda existem números avultados, mas são estas pessoas que nos põem a pensar na verdadeira vida, no valor que damos àquilo que nos rodeia. Queria tanto uns ténis Nike e deram-me uns Addidas... O que pensaram as pessoas que ainda andam descalças? Queria um computador portátil, mas por divergência deram-me um fixo, parece chato? E aquelas pessoas que ainda não sabem o que é um computador? Quantas pessoas vivem em constantes dietas, enquanto noutro lado as pessoas morrem à dieta? Quantas crianças choram, imploram uma ida ao McDonalds, enquanto outras ficam felizes simplesmente com uma maçã?
A nós, que vivemos num continente onde temos acesso a tudo, custa-nos acreditar que na outra metade do mundo existe a inexistência de quase tudo. O que para nós parece fútil e mesquinho, insignificante, para alguém com sentimentos iguais a nós pode ser a maior riqueza existente.
Mas sei que, lá no fundo, onde existe pobreza, miséria, também existe algo que torna as pessoas mais ricas do que a água do Rio Nilo transformada em dinheiro. Algo que transforma qualquer quantia monetária reduzida a pó, a cinzas, a nada: o valor de um amigo.
Quantas pessoas que vivem no mundo da fama se podem orgulhar de ter um amigo verdadeiro? Aqui o número desce vertiginosamente. Não existe valor para um amigo, ele só fala por si. A amizade é algo intocável e perpétuo. Sendo verdadeira, ultrapassa todos os obstáculos e instala-se cuidadosa e humildemente nos corações.
Um verdadeiro amigo não está acima nem abaixo, está sempre ao lado para o que der e vier, com uma mão seca as nossas lágrimas e com a outra afaga os nossos cabelos.
Se o euro a cada dia que passa vai alterando o seu valor face ao dólar, um amigo a cada segundo que passa tem mais importância na nossa vida.

O Meu Mundo


Anda!
Quero mostrar-te o meu mundo!
Quero mostrar-te as minhas ilusões...
Os meus medos...
As minhas fantasias...

Vem!
Este mundo não me diz nada,
Não me mostra cor,
Nem alegria...
Oh! Pudera eu ter o dom de o pintar.
Pintá-lo de mil e uma cores
Tal como o meu mundo!

Não tenhas medo, anda!
Sei que o meu mundo é distante
Mas, não assusta...
Lá não há amarras...
Não há mortes...
Não há ódio...
Não há raiva...

Queria que tu o visses...
Que o mundo o visse...
O meu mundo,
Onde tudo é perfeito!
Mas os meus olhos choram,
A minha alma chora...
O meu pensamento chora...

Oh! Meu miserável pensamento...
Meus miseráveis olhos
Que tudo vêem
E tornam a minha alma despedaçada.
Obrigando a fechar-me no Meu Mundo
Que só na minha imaginação ganha contornos
E se transforma em realidade.
Todavia, continua a ser lindo:
O Meu Mundo!

Anseio Palavras


Anseio palavras!
Não! Não essas floridas
Proferidas por abutres,
Que circulam em voltas
Constantes e monótonas,
Em torno de uma carcaça!

Anseio palavras!
Não palavras vazias,
Cheias de promessas ocas.
Palavras mandadas para o ar
Por predadores que da sua presa
Somente querem uma cruz!

Anseio palavras!
Aquelas que voam…
Leves e soltas…
Por serrarias e prados,
Tal mustang correndo errante,
Sem tempo, nem destino…

Anseio palavras!
Essas palavras ditas num murmúrio…
Num olhar…
Num silêncio…
Palavras suaves,
Das quais Vénus fez o seu dicionário,
E eu… o meu Mundo!

Anseio palavras!
Aquelas sem tempo…
Aquelas que vão para lá do infinito…
Aquelas que me protegem…
Essas mesmas:
As Tuas!

Sozinha nos meus pensamentos,
Procuro ser outra e não eu...
Não estar aqui
Nem ali...
Estar noutro lugar!

Anseio pelo 26 de Abril!
Que outra revolução acorde
Esta sociedade inerte
Que me envolve.
Estas falsas demagogias,
Que transformam a felicidade
Numa distante e inalcançável utopia.

O Lápis Azul era real,
Mas pior que ele...
É ele mesmo!
Esse Lápis Azul psicológico
Que me deixa encarcerada
Numa masmorra vazia,
Onde o silêncio
Dá lugar a lágrimas...

Será que ainda é precisa uma manhã de nevoeiro?
Ou uma música a passar na rádio?
Ou outro pinhal em Leiria?
Para que esta sociedade mesquinha
Volte a acreditar?

Estou fatigada!
Esta dor psicológica
Que me envolve e me repugna
Origina a minha doença física.
Este marasmo...
Esta letargia...
Estes discursos floridos
Cheios de retóricas vazias...
Deixam-me amarrada.
Presa a mim própria...
E ao mundo...

Numa simples tela...


Esta história não começa como outra qualquer, esta começa numa tela em branco, até ao dia em que a decidi pintar.
Queria pintar um mundo colorido, repleto de mil e uma cores. Com pessoas felizes, uma Natureza idílica e acolhedora, um sol resplandecente salientando a beleza natural de um mundo perfeito. Água jorrando, límpida e abundante, pelas encostas verdejantes de uma montanha. Contudo, as minhas mãos teimavam em pintar um mundo a preto e branco. Um mundo escuro, sem cor, sem vida... triste. Nada do que tinha planeado estava pintado, tudo tinha saído exactamente ao contrário. Sentia-me triste, desiludia comigo própria...
Não baixei os braços e decidi pintar a liberdade. Um belo cravo vermelho idealizei estampar naquela tela. Em primeiro plano o cravo e como fundo um azul claro com pombas brancas voando livre e errantemente pelos ares indo em busca do infinito. Todavia, e como da primeira vez, nada aconteceu como o previsto. Quando reparei, a tela estava coberta de armas, o vermelho do cravo estava transformado em sangue de guerra, as pombas fugiam espavoridas das bombas, o azul do céu estava manchado com enormes nuvens negras.
Fiquei descontente, já me considerava uma pinta-monos, mas continuei de cabeça erguida. Olhei à minha volta tentando encontrar algo que eu pudesse retratar naquela tela alva que se encontrava à minha frente. Por mais que me esforçasse não encontrava nada que chamasse a minha atenção. Tudo parecia monótono, triste. Eu queria transmitir algo diferente, único, feliz.
Nesse momento fui assaltada por diversos pensamentos. Primeiro vinham os maus. Os momentos mais difíceis, dolorosos e penosos da minha vida, para logo serem substituídos pelos mais bonitos, harmoniosos, graciosos. Momentos únicos e pequenos mas vividos com toda a intensidade.
Passada uma hora de reflexão em que todas as memórias passaram alternadamente como um filme pela minha cabeça, ganhei forças e peguei num pincel. Em todas as minhas recordações encontrei algo de comum que me ajudou a superar os momentos mais daninhos. Não sabendo como representar esse sentimento, optei por marcar o seu nome.
Comecei a delineá-lo de preto. Mas a palavra parecia ter vontade própria, pois à medida que a ia pintando ela aparecia representada num bilião de cores. Cores que transmitiam união, alegria, companheirismo, cumplicidade, força...
A palavra “Amizade” vincada naquela tela deixava transparecer tudo o que esse sentimento significa. Se para uns bastam palavras, para outros as palavras são poucas.
Pequenos gestos..., simples músicas..., banais palavras..., escassos segundos... podem marcar para sempre. Marcar uma pessoa para o resto da vida, provocando lágrimas e choros intensos. Como afirmou Vinicius de Moraes: “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida... mas é delicioso que eles saibam e sintam que eu os adoro, embora não o declare e os procure sempre...”.
Sei que os verdadeiros amigos não são aqueles que estão sempre connosco, mas sim aqueles que vêm quando o resto do mundo se vai embora, aqueles que não só partilham alegrias mas também as tristezas, os momentos bons e maus...
Como é difícil definir a Amizade! Talvez porque não tem definição, apenas é sentida. As acções e as palavras existentes em todo o mundo resumem-se a pó quando a amizade é intensa e vivida em toda a sua plenitude e inocência.
Agora estava feliz. Na tela eu deixava transparecer o sentimento mais lindo, sem sombras nem pudor. Ele só e o seu significado. A palavra falava por si.
A tela estava simples. Nada como a simplicidade para realçar a beleza das coisas escondidas, da pureza. Só a palavra marcava uma forte presença. As ideias estavam lá patentes, ficava ao critério de cada um, dependendo da amizade que o rodeia, tirar o seu significado.
Quando acabei, uma lágrima rolou pela face, não pela tristeza que sentia, mas sim pela força da AMIZADE...

Do Douro ao Divino


Sentada em frente da janela do meu quarto observo as vinhas e os socalcos que compõem a exuberante paisagem do Douro, aquele ex-libris que acalenta os corações e saceia os Deuses.
Paisagem edificada com muito suor e sangue, por mãos calejadas e ásperas, rostos queimados pelo sol escaldante de Verão e molhados pelas tempestades de Inverno, por pessoas que despendem nessas terras pedregosas do Douro muita força e trabalho e quando a noite cai e a Lua se levanta, linda e majestosa no céu, vem o cansaço que rapidamente se apodera daqueles corpos dormentes, doridos ligados à terra. O sono vem rapidamente mas sem sonhos, estes são transformados na ânsia de acordar na manhã seguinte e retomar aquilo que no dia antecedente ficou por concluir.
Quando o corpo amolece e pede um leito onde a suavidade dos lençóis o envolve, a força de vontade vem forte e instala-se firmemente. Aquela vontade de ver finalmente o seu esforço compensado uma vez que o dinheiro mal o ampara. Aquela vontade que regala os olhos, que envia para os calabouços da memória a dor física que se ultrapassa entre o Sol e a Lua, a vontade de ver sair daquelas videiras o néctar de Baco, a união dos Homens com os Deuses, os Homens elevam-se ao Divino e os Deuses descendem ao profano.
Trabalho após trabalho… Dia após dia, as encostas são esculpidas, trabalhadas e só mesmo o Rio Douro, que serpenteia até à sua foz, vê as maravilhas que o Homem opera e as marcas que o tempo coloca nos rostos daqueles que nunca baixam os braços…
Numa cepa despida, retorcida e triste deposita-se a esperança de uma nova vida, tal mãe que espera ansiosamente a conclusão do ciclo da sua gestação. Vê-se nascer as primeiras folhas, …, os primeiros ramos, …, os primeiros cachos, … até que a vinha ganha vida! O tempo passa e de verdes e amargas as uvas ganham uma doçura muito característica e um aroma que envolve todo o Douro indo em direcção aos Céus…
Contudo, como se não bastassem os trabalhos que o próprio trabalho exige, surgem outros. As pragas – tais como a tão recordada e devastadora filoxera, o míldio – que destroçam os corações fracos daqueles corpos que se habituaram a ser fortes e transformam as vinhas em imensos cemitérios… Nos olhos balançam as lágrimas, que rolam pela face e caem no solo do Douro marcando-o como ferro em brasa no corpo de um animal indefeso… Mas daquela lágrima, daquela colheita perdida surge uma nova esperança, um novo alento para aquelas almas funestas: a vontade de mudar o destino, para que o amanhã seja melhor, que traga um sorriso para compensar a lágrima que hoje foi derramada…
As mangas arregaçam-se e uma nova força nasce vinda não se sabe de onde. Serão os Deuses a incentivarem os Dourienses para continuarem a sua lavra? Será o próprio Douro, que após estar marcado com tantas lágrimas, quer ver dele sair a delicia do Olimpo?
Mesmo no meu quarto, quando o vento sopra e as folhas das videiras balançam ao sabor da brisa, sinto que são os Deuses ansiosos que o Douro dê sempre o melhor de si a cada ano, que console o trabalho daqueles que têm na vinha a sua própria vida, não se sabendo onde acaba uma e começa a outra…
E assim se constrói o Douro: num vai e vem continuo de trabalhos e esperanças…





Capas Negras


Actualmente, as praxes têm sido notícia e tema de muitas conversas desde os meios de comunicação social, passando pelos lares e, principalmente, no meio académico.
É normal, para quem vê as praxes do lado de fora, ter uma perspectiva diferente e vê-las como um meio de humilhação em que os caloiros são espezinhados pelos seus Doutores e Veteranos. O que não é normal é ver determinadas pessoas a opinarem sobre uma temática tão delicada e importante para a vida académica sem estarem minimamente informadas sobre o assunto em questão e é com repulsa que ouço “praxista” em vez de “praxante”...
O que é a praxe, afinal? Toda a gente conhece essa palavra, mas poucos sabem o seu verdadeiro valor. Utilizando a função metalinguística da linguagem, podemos defini-la como sendo uma regra, um sistema. Todavia, no mundo académico essa palavra simboliza muito mais!
Num novo mundo desconhecido, em plena transição do ensino secundário para o universitário, todos os alunos sentem-se perdidos, sentem-se como um barco à deriva em pleno oceano. Numa nova cidade onde não se conhece ninguém, vem ao encontro dos caloiros a praxe. No mundo académico, a praxe é um conjunto de tradições que variam de Universidade para Universidade, mas todas se centram num mesmo objectivo: a integração e a sociabilização dos novos alunos no seu novo habitat.
Correr atrás de um sonho acarreta, na maioria das vezes, dor e sofrimento. Mas qual o estudante que não sonha entrar no ensino superior? Qual o estudante que, ao ver na rua um universitário com o seu traje e a sua capa negra, não sonha acordado com o momento em que ele próprio exibirá a sua capa negra na terra natal?
A praxe, tal como a capa negra, engrandece e enobrece tanto o estabelecimento universitário como o próprio estudante. É durante o período de praxe que os novatos têm o primeiro contacto com o novo estabelecimento de ensino, vão conhecendo pouco a pouco a nova cidade e, acima de tudo, vão conhecendo os novos companheiros.
Durante a transição de estabelecimentos de ensino sente-se a falta de tudo: de uma mão amiga, de uma voz familiar, de um abraço bem apertado, das conversas banais, de um rosto conhecido ao percorrermos os corredores, da comidinha da mamã, dos verdadeiros Amigos... E, nesta altura, se os caloiros ficassem dependentes deles mesmos, sem ninguém que os ajudasse na sua integração, afundar-se-iam tal Titanic que, na sua trajectória, encontra um iceberg. Contudo, existem os Doutores que nos acompanham, mostram-nos a realidade académica e ajudam-nos a superar a saudade, a superarmo-nos a nós mesmos.
Entre grandes amigos existem aquelas músicas, aqueles programas de TV, aquelas conversas que todos partilham e gostam. Todavia, quando todos os caloiros se encontram a depender de si mesmo, sem conhecer o colega do lado, as praxes são o seu único elo de ligação, nem que seja por escassos segundos, os segundos suficientes para perguntar o nome, a cidade de origem ou quiçá as horas...
Ao início é muito doloroso! Apetece voltar atrás no tempo e pará-lo naqueles momentos que estão a ser vividos com aquelas pessoas que tanto nos dizem, mesmo nos silêncios, naqueles locais tão familiares e idílicos... No entanto, a vida coloca à nossa frente vários caminhos, cabendo-nos a nós optar por aquele que vai ao encontro do nossos sonhos e das metas que estipulámos, tendo sempre na memória e no coração aquelas grandes pessoas que passam pela nossa vida e, de certa maneira, nos ajudam a crescer.
Mas, se para os caloiros o início é doloroso, para as “Capas Negras” ainda é mais: acompanham-nos para todo o lado, ajudam na sua integração tanto na cidade como no meio académico, passam a ser a gota de água no meio do deserto e, como se isto não bastasse, começam a ter trabalhos académicos que têm de elaborar. No dia seguinte é visível o cansaço, as olheiras profundas naqueles rostos de estudantes que, para além da sua lavra académica, ainda estão dispostos a ajudar aqueles que estão a dar os primeiros passos.
Todo o mundo universitário necessita das praxes, são elas que marcam os caloiros e a entrada no ensino superior. Estamos neste mundo de passagem, a inexorabilidade do tempo torna o ser humano num ser frágil e mesquinho, dá a sensação que o tempo voa. Se não fossem as marcas, as recordações que deixa, dir-se-ia mesmo que voamos nas asas do tempo.
As praxes têm a sua faceta lúdica, divertida, cómica, mas acima de tudo interacção e companheirismo. Para se saber o verdadeiro valor da praxe deve-se primeiramente vivê-la na sua plenitude e pureza e só então opinar-se devidamente sobre essa temática.