
Sentada em frente da janela do meu quarto observo as vinhas e os socalcos que compõem a exuberante paisagem do Douro, aquele ex-libris que acalenta os corações e saceia os Deuses.
Paisagem edificada com muito suor e sangue, por mãos calejadas e ásperas, rostos queimados pelo sol escaldante de Verão e molhados pelas tempestades de Inverno, por pessoas que despendem nessas terras pedregosas do Douro muita força e trabalho e quando a noite cai e a Lua se levanta, linda e majestosa no céu, vem o cansaço que rapidamente se apodera daqueles corpos dormentes, doridos ligados à terra. O sono vem rapidamente mas sem sonhos, estes são transformados na ânsia de acordar na manhã seguinte e retomar aquilo que no dia antecedente ficou por concluir.
Quando o corpo amolece e pede um leito onde a suavidade dos lençóis o envolve, a força de vontade vem forte e instala-se firmemente. Aquela vontade de ver finalmente o seu esforço compensado uma vez que o dinheiro mal o ampara. Aquela vontade que regala os olhos, que envia para os calabouços da memória a dor física que se ultrapassa entre o Sol e a Lua, a vontade de ver sair daquelas videiras o néctar de Baco, a união dos Homens com os Deuses, os Homens elevam-se ao Divino e os Deuses descendem ao profano.
Trabalho após trabalho… Dia após dia, as encostas são esculpidas, trabalhadas e só mesmo o Rio Douro, que serpenteia até à sua foz, vê as maravilhas que o Homem opera e as marcas que o tempo coloca nos rostos daqueles que nunca baixam os braços…
Numa cepa despida, retorcida e triste deposita-se a esperança de uma nova vida, tal mãe que espera ansiosamente a conclusão do ciclo da sua gestação. Vê-se nascer as primeiras folhas, …, os primeiros ramos, …, os primeiros cachos, … até que a vinha ganha vida! O tempo passa e de verdes e amargas as uvas ganham uma doçura muito característica e um aroma que envolve todo o Douro indo em direcção aos Céus…
Contudo, como se não bastassem os trabalhos que o próprio trabalho exige, surgem outros. As pragas – tais como a tão recordada e devastadora filoxera, o míldio – que destroçam os corações fracos daqueles corpos que se habituaram a ser fortes e transformam as vinhas em imensos cemitérios… Nos olhos balançam as lágrimas, que rolam pela face e caem no solo do Douro marcando-o como ferro em brasa no corpo de um animal indefeso… Mas daquela lágrima, daquela colheita perdida surge uma nova esperança, um novo alento para aquelas almas funestas: a vontade de mudar o destino, para que o amanhã seja melhor, que traga um sorriso para compensar a lágrima que hoje foi derramada…
As mangas arregaçam-se e uma nova força nasce vinda não se sabe de onde. Serão os Deuses a incentivarem os Dourienses para continuarem a sua lavra? Será o próprio Douro, que após estar marcado com tantas lágrimas, quer ver dele sair a delicia do Olimpo?
Mesmo no meu quarto, quando o vento sopra e as folhas das videiras balançam ao sabor da brisa, sinto que são os Deuses ansiosos que o Douro dê sempre o melhor de si a cada ano, que console o trabalho daqueles que têm na vinha a sua própria vida, não se sabendo onde acaba uma e começa a outra…
E assim se constrói o Douro: num vai e vem continuo de trabalhos e esperanças…
Paisagem edificada com muito suor e sangue, por mãos calejadas e ásperas, rostos queimados pelo sol escaldante de Verão e molhados pelas tempestades de Inverno, por pessoas que despendem nessas terras pedregosas do Douro muita força e trabalho e quando a noite cai e a Lua se levanta, linda e majestosa no céu, vem o cansaço que rapidamente se apodera daqueles corpos dormentes, doridos ligados à terra. O sono vem rapidamente mas sem sonhos, estes são transformados na ânsia de acordar na manhã seguinte e retomar aquilo que no dia antecedente ficou por concluir.
Quando o corpo amolece e pede um leito onde a suavidade dos lençóis o envolve, a força de vontade vem forte e instala-se firmemente. Aquela vontade de ver finalmente o seu esforço compensado uma vez que o dinheiro mal o ampara. Aquela vontade que regala os olhos, que envia para os calabouços da memória a dor física que se ultrapassa entre o Sol e a Lua, a vontade de ver sair daquelas videiras o néctar de Baco, a união dos Homens com os Deuses, os Homens elevam-se ao Divino e os Deuses descendem ao profano.
Trabalho após trabalho… Dia após dia, as encostas são esculpidas, trabalhadas e só mesmo o Rio Douro, que serpenteia até à sua foz, vê as maravilhas que o Homem opera e as marcas que o tempo coloca nos rostos daqueles que nunca baixam os braços…
Numa cepa despida, retorcida e triste deposita-se a esperança de uma nova vida, tal mãe que espera ansiosamente a conclusão do ciclo da sua gestação. Vê-se nascer as primeiras folhas, …, os primeiros ramos, …, os primeiros cachos, … até que a vinha ganha vida! O tempo passa e de verdes e amargas as uvas ganham uma doçura muito característica e um aroma que envolve todo o Douro indo em direcção aos Céus…
Contudo, como se não bastassem os trabalhos que o próprio trabalho exige, surgem outros. As pragas – tais como a tão recordada e devastadora filoxera, o míldio – que destroçam os corações fracos daqueles corpos que se habituaram a ser fortes e transformam as vinhas em imensos cemitérios… Nos olhos balançam as lágrimas, que rolam pela face e caem no solo do Douro marcando-o como ferro em brasa no corpo de um animal indefeso… Mas daquela lágrima, daquela colheita perdida surge uma nova esperança, um novo alento para aquelas almas funestas: a vontade de mudar o destino, para que o amanhã seja melhor, que traga um sorriso para compensar a lágrima que hoje foi derramada…
As mangas arregaçam-se e uma nova força nasce vinda não se sabe de onde. Serão os Deuses a incentivarem os Dourienses para continuarem a sua lavra? Será o próprio Douro, que após estar marcado com tantas lágrimas, quer ver dele sair a delicia do Olimpo?
Mesmo no meu quarto, quando o vento sopra e as folhas das videiras balançam ao sabor da brisa, sinto que são os Deuses ansiosos que o Douro dê sempre o melhor de si a cada ano, que console o trabalho daqueles que têm na vinha a sua própria vida, não se sabendo onde acaba uma e começa a outra…
E assim se constrói o Douro: num vai e vem continuo de trabalhos e esperanças…
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