quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Douro d'Ouro


Verdes socalcos, uvas a ganhar cor e sabor, corpos doridos, sol escaldante que ilumina o Douro.
Mãos calejadas, pernas cansadas, costas vergadas, rostos queimados, olhar radiante ao observar em cada videira o amadurecimente daquele que será transformado num néctar divino. Mas, quando o próprio Baco se revolta com a terra que lhe fornece o seu reino e surge o míldio, a filoxera, o povo cansado e temente embora baixe a cabeça nunca baixa os braços e, sem se saber de onde, surge uma força invissivel e começa a batalha contra o inimigo da vinha.
Oh Douro! Douro que ouvis-te das tuas encostas o gemido de muitos homens, o choro de muitas mulheres, o grito de muitas crianças, o uivar dos lobos. Douro que viste o plantar de cada cepa, o atirar da primeira pedra para construir mais um patamar rochoso e dificil de trabalhar. Douro, agora ouves o trabalhar das máquinas, vês socalcos cada vez mais uniformes e menos pedregosos mas, ainda ouves homens e mulheres, crianças e à noite o uivar de animais, o cantar constante dos grilos, os gritos surdos das videiras a darem o melhor de si, os gemidos e gritos dos pesadelos daqueles que todos os dias se levantam e deitam tendo as tuas encostas e do que delas emanas na cabeça!
Oh Douro! Tua água que corre em direcção ao mar tanto vê, tanto ouve! Qual ninfa do Tejo se aproxima da beleza do teu serpentear? Qual trabalho humano se compara aquele que todos os anos é elaborado nas tuas ingremes encostas?
Podar, adubar, escavar, sulfatar, tratar, amar, aquelas cepas tortas e controcidas que, com o tempo, brotam as primeiras folhas seguidamente pequenos e frageis cachos indo em direcção a lindas vinhas pintadas de verde que as águas do Douro refletem para o céu tais ninfas saindo das profundezas da água servindo de inspiração e força invissivel ao povo douriense. Chega a vindima. Altura de trabalho redobrobado onde homens transportam nas costas vergadas mais que o seu próprio peso, todo o peso do Douro e as mulheres retiram das cepas os frutos divinos que serão a tentação de Baco e da própria Humanidade!
O Barco Rabelo tão pequeno sabe bem o poder das tuas águas, a força da tua corrente em direcção a um bom porto que leve o néctar do Douro para os quatro cantos do Mundo! Pequeno mas poderoso barco! As naus que descobriram mares desconhecidos eram grandes e imponentes carregavam com a fé de todo um país mas pelas águas do Douro navegava um pequeno barco que abrangia a fé, o suor, o sangue de um povo, o acalentar da sede de Deuses e da humanidade! Tanta diferença no tamanho mas transportam esperança e lágrimas por igual! E no cais, lenços brancos acenavam com a esperança de ver os navegadores novamente sem que a água lhes abafasse o último suspiro!
É num vai e vem constante de emoções que o comboio transporta as pessoas pelas tuas margens e os barcos pelas águas, oh Douro!
Oh Douro que abraças-te o medo, que lavas-te e refrescas-te tantos rostos queimados, que sacias-te a sede de tantos corpos doridos, nenhuma barra de ouro se compara ao teu valor, à tua beleza que se mistura nas águas do Atlântico mas mesmo assim em cada gota do teu caudal está tatuada com a beleza impar da vinha e do vinho! Douro, de que será feito o teu caudal? Somente pela água dos teus afluentes que correm para ti e deixam-se embrenhar pelas tuas encostas e da água que os Deuses mandam para e Terra? Ou também de lágrimas e suor, sangue e vinho, esperanças e trabalhos?
Sim Douro, tu és ouro! Ouro para quem olha para ti todos os dias. Aqueles que pelas tuas águas navegam sentem todo um passado doloroso, o grito abafado pela água daquelas pessoas que morreram sofucadas tanto pela água como pela terra! Enquanto o Tejo fica a ver navios, o Douro vê toda uma penóplia de emoções e labores!

1 comentário:

Unknown disse...

isto sim....
passei pelo blog só para ver as novidades e este texto chamou-me logo a atenção.
está fantástico...expressivo, verdadeiro...emotivo. só quem sente o douro como seu tem um dom como este. de O escrever desta forma.
parabéns!