quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sentada num café...



Sentada numa mesa do café mesmo em frente à grande janela rasgada para a rua principal, vejo as pessoas a correr de um lado para outro.
Uma correria desenfreada… Será somente por causa da chuva e do vento que se faz sentir nesta tarde? A cidade encontra-se iluminada com mil e uma luzinhas de Natal, metade das pessoas passa e nem repara, a outra metade encontra-se em casa, abrigada do frio que se faz sentir.
Pessoas para cá, pessoas para lá… Cabeça baixa, uma mão segura um guarda-chuva, a outra sacolas, ou mesmo aconchega o cachecol que teima esvoaçar ao vento. São raras as cabeças que se erguem a e admiram o que está a sua volta.
O café encontra-se praticamente vazio. Eu, observando as pessoas a passarem na rua enquanto mexo ritmicamente um carioca de limão; dois senhores de fato e gravata sentados à mesa mais distante, com chávenas de café e dossiers de papéis pousados em cima da minúscula mesa redonda, mexendo descontroladamente os braços enquanto falam: ora sussurrando, ora em plenos pulmões invadindo todo o espaço; na mesa mais junto ao balcão, um casal com uma filha pequena, enquanto a criança (não mais que cinco anos de idade) toma o seu copo de leite, a mãe fala ao telemóvel e o pai lê descontraidamente o jornal; na mesa à direita da minha, duas raparigas desfolham uma daquelas revistas sem interesse cujo tema central é a vida deste e daquele, e do outro que dormiu com fulano, cheia de fotografias de famosos. Sem sombra de dúvida, estão a divertir-se!
Às vezes ouço o som da televisão, outras vezes a voz alterada dos dois senhores, ou mesmo a senhora a falar com a sua amiga ao telemóvel. Todavia, são os gritos histéricos das duas jovens (com os seus catorze/quinze anos) ao meu lado, cuja conversa ouço plenamente bem, que me fazem sorrir. E pensar…
- Ai, este é tão lindo! Por ele ia até à Inglaterra… – suspira uma.
- Olha, este é português e participa naquela telenovela… - afirma outra convictamente.
Eu ri. Sorri da conversa delas. Daquelas conversas sem nexo que se tem em plena “idade do armário”, onde aquelas pessoas que aparecem na capa das revistas ou na televisão com deslumbrantes sorrisos rasgados de orelha a orelha (mas na maioria das vezes falsos!) são os verdadeiros heróis, campeões dos ecrãs, marca de determinada telenovela ou mesmo de um canal televisivo.
Gritos vêm dos lados do balcão… Olho. Nesse mesmo instante vejo a mão da mãe erguer-se indo parar directamente na face direita da filha. Entre o choro abafado ouve-se um “ligo-te já!”. A senhora levanta-se e dirige-se apressadamente para a casa de banho. Estaria ela chateada por a filha ter vazado o copo de leite sujando a camisola cor-de-rosa que envergava ou pelo facto de ter de desligar desajeitadamente a chamada? O pai envergonhado levanta-se, dirige-se para o balcão, pede desculpa pelo incómodo, paga a conta e espera que elas cheguem. Quando isso acontece, os três saem pela porta corrediça do café. Já lá fora, enquanto o pai abre um guarda-chuva preto, a mãe pega no telemóvel para retomar a chamada inesperadamente interrompida. Até que desaparecem do meu campo de visão permitido pela grande janela de vidro.
Olho à minha volta… Exceptuando a senhora com os seus quarenta anos, de avental à volta da cintura e um pouco anafada, mais ninguém parecia reparar no que acabou de acontecer: os dois senhores permanecem compenetrados num montão de papéis, as duas jovens riem alegremente enquanto folheiam a revista…
O tempo passa… A senhora de avental, atrás do seu balcão redondo, concentra-se no ecrã televisivo onde um daqueles programas de Natal passa.
Lá fora a chuva cessa. Os dois homens arrumam, pagam a conta e saem ouvindo-se um dócil:
“- Voltem sempre, doutores!”.
Olho para eles enquanto saem…. De fato e gravata, ambos. Isso faz deles doutores? Sendo assim, quem anda de fato e gravata é doutor… Indubitavelmente, andar assim vestido impõe respeito, contudo, não passam de bélicos de escritório uma vez que o uso da gravata (cravat) é oriundo de cruéis mercenários “croatas” que, antes de partirem para o combate, colocavam lenços atados com um nó em torno do pescoço.
O meu telemóvel toca… Deixo-o tocar, nem olho para o ecrã para ver quem está do outro lado da chamada… Deixo Can You Feel the Love, de Elton John, invadir o espaço quase deserto do café.
Na mesa ao lado, as raparigas olham para mim estupefactas. A chamada acaba. Permanecem a olhar para mim. Olho para elas e reparo que ambas estão excessivamente maquilhadas, ou será excesso de parvoíce? Talvez a mistura das duas: uma reflectindo-se na outra!
Continuam a olhar para mim com desdém. Será pelo facto de não ser “cool”, não ter Tokio Hotel ou mesmo D’ZRT como toque de chamada no meu telemóvel? Será pelo facto de não ter as unhas roídas até ao sabugo como ambas tinham? Ou por ainda continuar a mexer ritmicamente o carioca sem ainda o ter provado? Não sei…
A revista acaba. Ambas levantam-se, dirigem-se para o balcão e despertam a senhora que quase entra em transe olhando para o programa que passa na pequena caixa colocada num canto do café.
O meu telemóvel volta a espalhar novamente a mesma música pelo café enquanto elas saem com sorrisinhos acanhados no rosto. Estando elas fora do café, ri eu dentro: a revista cai, encharcando-se! Incontestavelmente, uma catástrofe para elas…
Só eu fico sentada numa mesa daquele café. A senhora vê o seu programa na televisão enquanto come um chocolate.
O tempo voa… Lá fora já só se vêem vultos e luzes acesas. O programa acaba e começam as notícias.
Levanto-me da cadeira, visto o casaco colocado na cadeira ao meu lado e as luvas. Pago a conta daquele carioca que nem sequer provei. A senhora sorri para mim enquanto me dá o troco, deixando ver os seus dentes com resíduos de chocolate.
Saio do café aconchegando em torno do pescoço o cachecol, deixo-me envolver pela escuridão que reina na rua, pela mesquinhez das pessoas apressadas que ainda deambulam pela rua como robots programados por esta ou aquela marca ou mesmo publicidade para adquirir determinado produto, enquanto o vento frio enregela-me os ossos…


1 comentário:

Jovem adulta disse...

http://www.youtube.com/watch?v=NjnZ5MUaMXA, ouve e reflecte...