Era uma vez...
Era uma vez uma longa jornada. Sentia-me exausta. Olhava no horizonte e via sempre a mesma coisa: água… Até que lá longe avisto uma ilha perdida no meio do nada.Invadi aquela ilha… Com receio… Com medo do que podia encontrar… Ando em frente… Olho com atenção… Não queria acreditar no que os meus olhos me mostravam… Olho com mais atenção e deparo com imagens fascinantes: homens e mulheres caminhavam lado a lado, todas as raças partilhavam as suas culturas, as crianças brincavam livremente, todos respeitavam e eram respeitados.
Era um reino encantado, onde não existia Rei nem Rainha; escravo nem servo. Tudo era perfeito. Não existiam bombas, chicotes, prisões, grilhetas, canhões, armas… Não existia o cheiro a sangue, a suor, a morte… Não se ouviam gemidos, choros, gritos… Não se viam lágrimas a serem derramadas, mãos levantadas, cabeças baixadas, mulheres magoadas… Não se via medo nem sofrimento.
O aroma que pairava no ar era doce e perfumado. Ouviam-se conversas e trocas de opiniões. Escutavam-se risadas alegres das crianças que brincavam distraidamente… Viam-se mulheres de cabeça erguida, sem terem o rosto tapado, sem nódoas negras pelo corpo, sem medo de Amar… Viam-se brancos, negros, amarelos a conviver livremente, idosos a partilharem as suas histórias…
Ando em frente, fascinada com o que via. Não existia fome nem guerra, discussões nem mortes, ódio nem raiva, simplesmente existia Amor e Felicidade. As pessoas, mesmo falando línguas diferentes, comunicavam sem rancor.
De repente vejo uma criança à minha frente. Os seus olhos estavam brilhantes e confusos, a cor da sua pele era escura, nos pés tinha uns lindos sapatos. Estendeu-me a mão. Acompanhei-a um banco de jardim, e lá mostrou-me um livro. Um livro arrepiante. Um livro que falava de um mundo que me era familiar. Falava de mortes, de guerras, de racismo, de mulheres magoadas que tinham que andar de cabeça tapada, de crianças com fome, descalças, com medo de sair para a rua, treinadas para matar. Falava de um mundo onde as diferenças de cultura, de opinião, de raça, de cor, eram motivos para matar. Falava de animais a sofrer, animais treinados para matar, outros destinados a morrer porque o seu habitat está a ser destruído. Falava de homens que queriam mandar, cheios de ideias, de sonhos, discursos floridos mas ocos, vazios, parados. Falava de um mundo desequilibrado: de um lado abundância e do outro falta de tudo, menos de sofrimento.
Horrorizada fechei o livro. Olhei para o lado… e depois para o outro, estava sozinha. Já não via homens nem mulheres, crianças nem idosos. Estava completamente só. Pombas brancas começam a voar… Sinto-me cansada e confusa.
“Trim… Trim…” Ouço o despertador. Acordo. A viagem tinha acabado. Estava a chorar, com medo de enfrentar aquele mundo, sem sentido. Aquele mundo que o livro me mostrou. Queria voltar a adormecer e regressar aquele Reino. Mas era impossível.
Da janela do meu quarto vejo pombas brancas. Guardo o Reino Encantado na minha memória. Levanto-me com a certeza que todos podemos ajudar a construir um muro que separe o sofrimento da felicidade e assim poderemos viver felizes para sempre…