O Mundo Desabou...
Ele. Ele era estudante universitário, com 20 anos tinha uma carreira de arquitecto pela frente. Estava no segundo ano e, naquela manhã, por ironia do destino, estava em frente do prédio onde morava a tempo para os seus companheiros o levarem, apanhar boleia como tantos outros dias, até que a viu.Ela. Ela não fazia o seu estilo. Era demasiado magra, alta, cabelos pretos e compridos, estava toda vestida de branco. Estava pálida, com enormes olheiras cravadas na face denunciando muitas horas sem dormir. Deambulava pela rua com olhos suplicantes, pedindo ajuda, um ombro para chorar.
Os seus colegas chegaram, ele partiu. Passou todo o dia a perguntar se alguém a conhecia, se alguém a tinha visto, mas nada. Todo o dia ele pensou nela, naqueles olhos negros, naquele olhar perdido, mas com um objectivo bem definido. Ao regressar a casa ele não a viu. Pensou que ela estaria ali por acaso, estaria perdida mas que naquele momento já encontrara o seu caminho.
Ás vinte e uma hora em ponto lá estava ele com os seus amigos para mais uma noite de diversão, naquela semana que os estudantes mais gostam, a Semana Académica. Ao entrar no bar, onde todos os dias ele marcava presença assídua, lá estava ela. Estava sentada numa mesa sozinha, ao fundo, no canto esquerdo do primeiro andar. Os seus olhos cravaram-se nele e uma pequena lágrima rolou-lhe pela face. Ele afastou-se dos colegas e caminhou em direcção a ela. A voz dela era rouca e pouco nítida. Curioso perguntou-lhe quem era, o que estava ali a fazer, de onde era, … As respostas dela eram vagas e em algumas perguntas a resposta era inexistente. Ela era misteriosa, fechada, vaga, … Estava ali porque andava a correr Mundo, tinha sido furtada não tinha dinheiro, roupa, comida, leito para dormir. Os pais estavam noutro continente, nada mais. E o silêncio reinou naquela mesa.
Ele com pena naquela noite ajudou-a. Pagou-lhe um jantar, levou-a para sua casa. Antes de ir para a universidade preparou-lhe o pequeno-almoço e deixou-lhe dinheiro para ela comprar roupa e as coisas que precisava. Todo o dia ele pensou nela. O seu comportamento tinha mudado. Deixara de ser divertido, como toda a gente o conhecia e passou a estar calado, pensativo. Quando acabaram as aulas regressou a casa rapidamente, estava ansioso por a voltar a ver. Ao chegar deparou-se com uma pessoa aterradora. Ela vestida roupas muito largas e pretas que realçavam o quanto era magra, os seus olhos pintados de negro tentando disfarçar as olheiras ainda profundas, o seu rosto estava pesado, carregado. Ele assustou-se.
O telefone toca. Os amigos dele preocupados queriam jantar com ele. Ela acompanhou-o. Saíram, divertiram-se, beberam. Ela não o largava. Ao regressarem a casa ela sussurra-lhe ao ouvido que estava prestes a partir mas antes havia algo que ela queria e tinha que fazer.
Passa uma semana. Ela permanece em casa dele, torna-se cada vez mais aterradora, distante. Ele sem querer apaixona-se por ela, pelo seu mistério, pelo seu olhar perdido, … Ele muda de personalidade, só quer estar com ela, esquece os conselhos dos amigos, falta ás aulas, agora mais que nunca deseja esquecer o resto do Mundo. Aquela vida pacata, simples com uma mulher e filhos torna-se para ele um sonho distante. Deseja aquela mulher, mesmo não sabendo nada dela.
Leva-a a jantar, depois vão ao cinema, a um bar qualquer que esteja aberto, passeiam, … a conta dele fica a zeros. Ficam sem dinheiro. Ela afirma que chegou a hora. Ele suplica-lhe para ficar. Ela diz que ele se vai arrepender de a conhecer.
Naquela noite de sexta-feira 13 ela sai de casa. Ele chora amargamente pela sua partida, contudo ás três da madrugada ela entra em casa com garrafas de vinho. Bebem. Ele fica completamente bêbedo, ela lúcida. Pela primeira vez fazem amor… Por volta das dez horas da manhã ele acorda sozinho no quarto com uma terrível dor de cabeça, e qual não é o seu espanto ao ver a casa com enormes panos pretos. Não existiam sinais dela, simplesmente um bilhete… Um bilhete aterrador… Ele não queria acreditar no que lia. Esfregou os olhos, voltou a ler mas ainda não acreditava. Tomou banho na esperança de aquilo ser um terrível, um horripilante pesadelo… Ao voltar torna a ler e nesse momento toma consciência daquilo que ela lhe tinha dito.
A alegria dele desvaneceu. O seu Mundo desabou. Sua vida mudou. Tinha que acontecer a ele, foi então que percebeu que o mal só não acontece aos outros. Passados dois anos, ele ainda não tem coragem para olhar para os colegas com um sorriso na face. Lê e relê, de seguida volta a ler aquele bilhete com uma aparência magnífica mas uma mensagem devastadora tentando perceber a veracidade daquela mensagem.
"Bem-vindo ao Mundo da SIDA!"
"Obrigada por todo o apoio. Apaixonei-me por ti, desde o momento que te vi abrir a porta do prédio. Sim, foi amor à primeira vista. Não queria que entrasses como eu neste Mundo, tentei em vão que te afastasses de mim naquele bar, menti, desculpa., Meu pai é bancário, minha mãe é professoar, fugi de casa. Queria uma vida diferente para mim. Tenho 19 anos, entrei para medicina, mas não consigo enfrentar o Mundo. Em pleno séc. XXI ainda existe discriminação, intolerância. Só queria que me compreendessem.
Foste o primeiro e o último, mais ninguém por minha causa vai entrar neste inferno. Tomei consciência que não tenho o direito de culpar toda a gente daquilo em que eu me meti. Por favor eu te imploro, não te aproximes da droga, não sejas ignorante. Ouve o conselho dos amigos que choram contigo, não daqueles que contigo se riem esses mentem. Na hora da verdade deixam-te só, abandonada no meio do nada.
Com eternas saudades, milhões de beijos.
Joana"
Ele recusava-se aceitar aquela informação. Uma vida com tanta alegria, não lhe podia estar a acontecer aquilo. Ele sempre tão prudente, tão racional, tão consciente dos perigos e dos riscos. Ainda recorda o seu olhar, os seus longos cabelos negros, aquela lágrima. Mas, nada melhor que o apoio dos colegas para ele voltar a sorrir, mas nunca mais foi o velho João que toda a gente conhecia.
"Obrigada por todo o apoio. Apaixonei-me por ti, desde o momento que te vi abrir a porta do prédio. Sim, foi amor à primeira vista. Não queria que entrasses como eu neste Mundo, tentei em vão que te afastasses de mim naquele bar, menti, desculpa., Meu pai é bancário, minha mãe é professoar, fugi de casa. Queria uma vida diferente para mim. Tenho 19 anos, entrei para medicina, mas não consigo enfrentar o Mundo. Em pleno séc. XXI ainda existe discriminação, intolerância. Só queria que me compreendessem.
Foste o primeiro e o último, mais ninguém por minha causa vai entrar neste inferno. Tomei consciência que não tenho o direito de culpar toda a gente daquilo em que eu me meti. Por favor eu te imploro, não te aproximes da droga, não sejas ignorante. Ouve o conselho dos amigos que choram contigo, não daqueles que contigo se riem esses mentem. Na hora da verdade deixam-te só, abandonada no meio do nada.Com eternas saudades, milhões de beijos.
Joana"
Ele recusava-se aceitar aquela informação. Uma vida com tanta alegria, não lhe podia estar a acontecer aquilo. Ele sempre tão prudente, tão racional, tão consciente dos perigos e dos riscos. Ainda recorda o seu olhar, os seus longos cabelos negros, aquela lágrima. Mas, nada melhor que o apoio dos colegas para ele voltar a sorrir, mas nunca mais foi o velho João que toda a gente conhecia.